A maldição da esterilidade

Publicado em 21 de maio de 2014 por - História

A necessidade de filhos atingia em cheio as mulheres. Comparadas a terras estéreis, humilhadas pelos companheiros e pela comunidade, associadas a mulas — animais que, estéreis geneticamente, eram conduzidos pelos padres, estes estéreis (pelo menos teoricamente) por vocação —, a esterilidade feminina era vivida como uma tara ou um contra-senso. Ao inverter o ciclo das gerações, interrompendo as linhagens e contrariando os ciclos agrícolas e a natureza, à qual seu ciclo vital deveria comparar-se, a mulher estéril parecia ter o corpo entupido, fechado e prisioneiro de forças estranhas.

Além dos recursos devocionais a santa Ana e santa Comba, padroeiras da fertilidade conjugal, era preciso quebrar o obstáculo que obstruía a passagem da preciosa semente que poderia fecundá-la. As explicações médicas para os descaminhos fisiológicos do corpo faziam-se impregnadas de magia. As exigências do casamento cristão, bem como as condições para sua dissolução, não pareciam, porém, penetrar as teorias sobre a infecundidade feminina. As dificuldades para reunir numa classificação os vários males “da madre”, as anomalias de órgãos que não podiam ser examinados porque internos, e o mito da passividade feminina na procriação contribuíam para que o corpo feminino fosse encarado, segundo Lígia Bellini, como uma “coisa obscura”.

Possuidora de “faculdades adormecidas, a madre devia despertar pela ação de piolhos e percevejos metidos no orifício do cano para que com mordeduras e movimentos que fazem excitem a faculdade repelente adormecida”. Sua desobstrução se faria “metendo-lhe na boca uma pequena castanha-da-índia, furando-a e atando-a bem com fio de retrós e deixando-a estar quatro ou seis horas, porque não só provoca bem a conjunção, mas alimpa a madre de todos os maus humores que são quase sempre a causa de muitas mulheres não conceberem”.

As analogias com animais de grande fecundidade faziam sugerir receitas à base de “sal fixo de ratos e caldo de galo velho”, por conceberem esses roedores “de uma só vez cinco ou seis ratinhos”. Beber “pelo tempo de três meses água cozida com uma mão cheia de sálvias machucadas” era indicação do “virtuoso” padre Jerônimo Lobo, religioso da Companhia de Jesus, que, assim, aprendera no Japão. Feijão-fradinho tomado em jejum misturado à água ou ingerir óleo de copaíba, como sugeria João Ferreira da Rosa em Pernambuco, no século XVII, “alimpava o útero de sordícies” que atrasavam a concepção. Guilherme Piso, por sua vez, lembrava que do óleo em que se assavam “aqueles vermes que vivem nas palmeiras” deviam fazer-se emplastros colocados sobre o umbigo: “tem-se visto não vulgares efeitos destes e semelhantes remédios, e mulheres consideradas estéreis vieram a recobrar a vitalidade para si e para a geração”.

“Achaques diabólicos contra a lei divina” atingiam também as mulheres estéreis, aconselhadas a pendurar “artemísia à entrada da porta” ou dissolver o malefício passando “esterco da pessoa amada no sapato direito”; a primeira que sentisse o fedor dissolveria o encantamento .

“Inimigo da saúde e da salvação das criaturas, invejoso da paz e do sossego que logram na terra os que bem vivem”, o demônio que obstaculizava a procriação tinha que ser rechaçado com defumações “das partes vergonhosas com os dentes de uma caveira”. Sua ação sobre a coisa obscura era imensa, posto que sua agente era a mulher.

Nos livros de medicina, as histórias sobre esterilizações maléficas eram várias: “Achou-se a imagem de uma mulher nobre que estava consumida a qual era fabricada de cera com um orifício em que estava engastada e metida a figura de um coração e na parte posterior escrito o nome da mulher”. Outra vomitara “uns poucos cabelos enlaçados, um molho de rosetas agulhas e uma massa do tamanho de um ovo, do qual saiu multidão de formiguinhas que exalavam fedor tão horrendo que nenhum dos circundantes o podia tolerar. Com segundo vômito expulsou um animal como um punho negro, capiloso, com cauda grande e modo de rato que, depois de andar pela casa com muita presteza, morreu.

Para fugir ao estigma da esterilidade, elas ainda untavam seus genitais com “esterco de raposa” e sebo de vaca, portavam amuletos feitos com genital de lobo, dentes de “criança de sete anos”, pedras de águia, além de rezar a santo Hilário, conhecido por seu “remédio para os casados terem filhos e afugentar o demônio” . A grande prole e o poder de gerá-la associavam-se às práticas de fecundidade, cujos restos, ou amostras, encontramos nas receitas mágico-medicinais inventariadas e “traduzidas” pelos doutores da época.

Mulheres e doutores, por sua vez, movimentavam-se ao longo do Antigo Regime num mesmo continente. Aqueles drenando lentamente conhecimentos que se originaram num espaço especificamente feminino: o da cozinha, o do quintal, o da horta, onde, entre ervas, frutos e animais domésticos, as mulheres praticavam corriqueiramente um saber sobre as doenças, as feridas, as dores e a procriação. Reunidas empiricamente pelos doutores, tais receitas perdiam a especificidade, mas não deixavam de ser praticadas. Grande parte dessas fórmulas caseiras era realizada por comadres e parteiras, excluindo a intervenção do médico, que só se tornará decisiva no século XIX, com o avanço da obstetrícia.- Mary del Priore.

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“A Sagrada Família e o jovem São João Batista” (1524), de Pierino Del Vaga.

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