A mais antiga profissão…

Publicado em 9 de março de 2015 por - História do Brasil

Nos finais dos anos 70, todo o mês de julho, a vida noturna das grandes cidades, animava-se. Em época de férias, com mulher e filhos distantes para descansar melhor, exauriam-se os maridos: “as cigarras”, como eram chamados. Sua presença em boates, nightclubs e todo o tipo de casa noturna, azeitava o faturamento da indústria da prostituição, um negócio com muitos interesses. No meio do ano, eles batiam recordes. Não só o preço das prostitutas subia, mas, acrescia a venda de bebidas alcoólicas e drogas, a freqüência de hotéis e motéis e até porteiros de boates eram beneficiados.  Em 1973, apenas em São Paulo, a polícia calculava haver 10.000 prostitutas, sendo 4.000 cadastrada. Entre essas, de 3.000 a 3.900 atuavam exclusivamente na “boca do luxo”, região onde casas como o La Licorne, Vagão, Telecoteco da Paróquia, Catedral do Samba, etc, tornavam-se terreno de caça entre cigarras e formigas. Todo esse aumento da prostituição, no entanto, não era coibido pela polícia, uma vez que vender sexo não era crime.

As cigarras não cantavam igual em toda a parte. A revista Veja, em matéria sobre o assunto, registrava as diferenças no país: “São Paulo, sem dúvida, é o centro nervoso desta época de apoteose – segundo as mulheres, é na capital paulista que está o ‘grosso do dinheiro’ (…). Os cariocas são em geral menos generosos do que os paulistas na remuneração dos seus programas. Os homens de negócios ou os senhores casados de cidades como Salvador e Recife, por sua vez não tem o hábito de se afastarem de suas famílias durante as férias de verão ou inverno (…). Os mineiros igualmente não têm sido clientes ideais para as boates. Eles recorrem mais às callgirls, que atendem em seus apartamentos (ou ‘apertamentos’) nos edifícios Malleta, JK e San Remo no centro de Belo Horizonte. (…) A segunda alternativa corre por conta dos encontros marcados, ainda por telefone, com uma das call-girls recomendadas pelos barmen de uma das principais boates da capital mineira, Lido, Chat Noir e People, sob um intrincado sistema de código que funciona na base do ‘doutor Antônio pediu para o senhor José ligar amanhã para ele às 10 horas’. Ou de que ‘o doutor Antônio confirmou que vai esperá-lo amanhã às 14 horas´. Em Brasília, o recesso parlamentar não chega a  alterar a vida noturna da cidade. Pelo contrário, as boites de Música pop Kako e Shalako continuam bastante freqüentadas, e a saída dos políticos, seguindo os porteiros e ascensoristas dos hotéis de alta categoria, recompensada pela chegada dos turistas.

A reportagem informava ainda que, como aves migratórias, durante o “mês das cigarras”, as prostitutas costumavam partir de suas cidades para outras “cujos mercados se revelassem mais promissores”. Haveria uma espécie de intercâmbio entre as casas de prostituição. O perfil das mulheres que viviam da prostituição era, em geral, o mesmo:

“(…) elas vivem da prostituição porque foram defloradas e abandonadas ou porque se separaram do marido e tinham filho para sustentar, ou simplesmente porque estavam a ponto de se desesperar por não poder ganhar dinheiro suficiente para comer. Quase sempre, também, todas pretendem ficar por pouco tempo na profissão e lamentam o que estão fazendo”.

As mais requisitadas eram “as fartas”, capazes de “encher uma cama”. Mas, mais importante é que fossem discretas. Em 1979, o Brasil assinou a Convenção contra o Tráfico de Pessoas e Exploração da Prostituição”. A atividade não era crime ilegal, mas sua exploração, por lenocínio ou tráfico de mulheres, sim, conforme artigos 227 e 231 do Código Penal Brasileiro. Alerta para o fato, a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, já chamara atenção para a situação das “madalenas”, sugerindo, inclusive, apoios: “A prostituição, como instituição legal, é uma mancha vergonhosa em nossa civilização. É a aceitação de um fato, postulado pelo egoísmo dos homens, propiciado pela fragilidade das mulheres, amparado pela hipocrisia generalizada” – registrava Dom Luciano Duarte.

A chegada da Aids calou a cantoria das “cigarras”. Bordéis e casas noturnas e de massagem esvaziaram-se. Muitas prostitutas e clientes foram vítimas do vírus, aumentando a discriminação e o preconceito. Nos anos 80, o debate sobre a violência contra as mulheres, abriu portas para que se abordasse aquela contra as prostitutas. Vítimas de cafténs, policiais e clientes, mas, também da doença, elas começaram a se organizar.   Surgiram movimentos sociais para proteger as “trabalhadoras do sexo” ou o “comércio do sexo”. E a preocupações morais e sanitárias evoluíram para questões como cidadania e direitos.

Após a realização, em 1987, do I Encontro Nacional de Prostitutas, na cidade do Rio de Janeiro, a estratégia para garantir o reconhecimento público da profissão e a cidadania das “profissionais do sexo” foi a criação e a legalização de associações em diferentes Estados. Dois anos depois, durante o II Encontro Nacional de Prostitutas, nasceria a Rede Nacional de Profissionais do Sexo. Nos anos seguintes um conjunto de entidades foi criado nos diversos estados brasileiros.

Em outubro de 2000, a revista Época elaborou uma série de reportagens sobre as “Prostitutas do século XXI”. Se antes, o ofício nascia da miséria, da falta de oportunidades, da migração interna e da promiscuidade, as coisas mudaram. Uma das entrevistadas dizia ansiar por fazer 18 anos para assumir, sem documentos falsos, sem a condição de vítima, a condição de prostituta. Escolhera comercializar o corpo, atraída por dinheiro. Seu namorado era o “empresário” e decidiu que ela deveria aprender inglês para negociar com clientes estrangeiros. Ao despedirem-se, na porta do local de trabalho, ela e ele trocavam juras: “eu te amo”.

Cafetinas entrevistadas explicavam que as cidades grandes atraíam meninas do interior. Elas ajudavam a família e para que não houvesse desconfiança do métier exercido, usavam dados mentirosos. Atraídas pela clientela VIP, muitas delas faziam carreira e uma vez a “profissão” abandonada, casavam, mudavam e montavam negócios próprios. Não era, contudo, a realidade de todas. “Pisteiras” arriscavam suas vidas à beira de estradas movimentadas, muitas delas, menores. No Centro-Oeste e Sul prevalecia a exploração em prostíbulos na rota do narcotráfico, redes de bordéis fechados, exploração de meninos e meninas de rua e denúncias de tráfico de crianças. O jornalista Gilberto Dimenstein as registrou nas áreas indígenas, sendo trocadas por cachaça, remédios, roupas e comidas.  Nos garimpos, do Norte, mal menstruavam, meninas eram encaminhadas aos bordéis. As condições eram terríveis: leilões de virgens, venda e tráfico de crianças e adolescentes, desaparecimento e cárcere privado e turismo sexual. No Nordeste e Sudeste prevalecia o último com rede organizada de aliciamento, que incluía agencias de turismo, nacionais e internacionais, hotéis, taxistas e comércio de pornografia. Segundo relatório da ONU, em 2001, havia 100.00 mulheres e crianças sexualmente exploradas, no Brasil. A vida destas pessoas, pouco mudou de lá para cá…Em 2003, o deputado federal Fernando Gabeira apresentou um Projeto de Lei tendo em vista o reconhecimento da prostituição como um “serviço de natureza sexual” e a legislação trabalhista tratou de inserir a atividade de profissionais do sexo como parte da Classificação Brasileira de Ocupações. Dos bordéis às boates e casas de massagem, e destas para as telas do computador, a prostituição confirma ser a mais velha e maleável profissão do mundo.

– Mary del Priore. (“Histórias Íntimas”).

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“Salão da Rue des Moulins” (1894), Henry de Tolouse Lautrec.

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