A invenção do corpo

Publicado em 4 de agosto de 2014 por - História do Brasil

A partir das mudanças políticas, sociais e culturais que chegaram depois da República, os homens – pelo menos na elite – passaram a desejar não mais a mulher elegante, dona de um corpo-ampulheta, verdadeira construção erguida com a ajuda de espartilhos e anquinhas, projetando seios e nádegas. Não mais a Cinderela, senhora de um pezinho minúsculo, capaz de condensar fantasias sexuais. Por sua vez, as mulheres abandonavam a couraça que as tinha simbolicamente protegido do desejo masculino. Desejo, alimentado pela voluptuosidade da espera, do mistério, do jogo de esconde-esconde que elas traduziam com seus corpos.

Era o começo do fim da excitação provocada pela mão na luva; pelos cabelos, com véus e chapéus; por pés recobertos com sapatos finos; pelo corpo submerso por toneladas de tecidos, só despido por ocasião de bailes, quando os decotes revelavam o verdadeiro desenho de pescoços e ombros.

Tudo isto ficava para trás… Pois desde o início do século, multiplicavam-se os ginásios, os professores de ginástica, os manuais de medicina que chamavam atenção para as vantagens físicas e morais dos exercícios. O trabalho nas ruas, o motor a explosão, o movimento das cidades exigia velocidade e agilidade. O corpo deixou de ter um papel secundário e ganhou em animação, em movimento. O lazer, graças aos teatros, festas públicas, feriados ao sol e mar incentivou novas formas de exibir as formas.

O esporte, cinema e dança foram manifestações primordiais no nascimento da sociedade do espetáculo, diretamente articuladas com o imaginário da modernidade por estarem plenamente adequadas aos significados de um novo modus vivendi. Moda, cartazes e luminosos de propaganda já anunciavam a moderna linguagem da publicidade e da comunicação. A fotografia permitiu a contemplação da própria imagem e a multiplicação dos espelhos, antes restritos às salas de jantar ou aos bordéis, também.  As páginas de revistas e jornais turbinavam informações no imaginário dos leitores. “Ser moderno” devia significar “ser brasileiro”, e para isso a imprensa não poupava esforços de divulgação de um novo ideário por meio de imagens, crônicas e comentários.

Esse novo modo de vida incluía a exposição física, a busca do prazer e da agitação, a crença na ciência e no progresso, a idéia de multidão, um processo de formação de uma cultura construída no hibridismo urbano do gosto das camadas médias e populares. E também uma abordagem mais sensual das paisagens que permitiu a invenção de formas de “se dar a ver”: o banho de mar, o de sol ou o de lama nas estações de águas.

A quem diga que o século XX inventou o corpo! Corpo novo e exibido. Mas, também, um corpo íntimo e sexuado que, lentamente, veria afrouxar as disciplinas do passado em benefício do prazer.  – Mary del Priore.

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2 Comentários

  1. Michele Chioccola Neto disse:

    Gostei muito da publicação. Gostaria de ser avisado de outras. Obrigado.

    • marcia disse:

      Obrigada, Michele. Todos os dias temos novos textos. Você pode curtir a página da Mary del Priore no Facebook ou no Twitter, para ser avisada a respeito de novas publicações.

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