“A idade não tem podido contra um coração todo seu”, carta de D. Pedro II à condessa de Barral

Publicado em 18 de novembro de 2015 por - História do Brasil

Depois de mais de trinta anos de amizade com a condessa de Barral, o imperador D. Pedro II sofre as saudades da distância que os separa: ele no Rio de Janeiro, ela em Roma.

Rio de Janeiro, 7 de junho de 1880

Condessa,

Cheguei às oito e meia para nove horas da manhã.

Careço de tempo para copiar as notas de minha viagem que muito me agradou. O Paraná é uma bela província de grande futuro. O frio fortificou-me, chegou numa manhã em Curitiba a dois graus abaixo de zero. Não imagina quanto você me faltou durante essa viagem. Se me quer muito quanto mais lhe quero eu como o melhor consolo para a vida que levo! Felizmente achei suas duas cartas acabadas a 30 de abril e a 4 de maio. Creia que a todas queimo e que preciso de que você me diga tudo e tudo. Sou o mesmo que lhe inspirou tamanha afeição e de nada me esqueço, tudo revivendo em mim com o mesmo viço de uma afeição de trinta e tantos anos.

Ah se lhe contasse tudo o que imaginei nas lindas noites dos campos do Paraná! A idade não tem podido contra um coração todo seu. Desculpe-me se lhe falo assim. Você sabe como a estimo, e tudo posso dizer a quem tão bons conselhos sempre me deu. Ah se você estivesse agora aqui ou eu em Roma, como apreciaríamos nossa afeição inabalável! Mais quisera dizer, po­rém prefiro que você adivinhe tudo o que eu acrescentaria ao que já escrevi. Vou ler para poder dormir. Adeus! E ainda adeus!

Mande-me como puder em sua próxima carta um pouco do que você sente por mim tão e tão longe de quem lhe quer cada vez mais. Adeus!

Vou enfim dormir.

Ontem, logo que cheguei e aviei, o mais urgente fui ver o reservató­rio de água do Pedregulho. Examinei bem a direção da fenda em quase toda uma diagonal do canto de noroeste ao de sudeste. Pode ser causa local, e a comis­são nomeada e composta de competentíssimos dará brevemente seu parecer. Rachas semelhantes sem rumo das obras têm-se dado em reservatórios cons­truídos sob a direção dos mais hábeis engenheiros. Voltei à barafunda política e amanhã já terei despacho à noite. O resto da semana será ocupado principalmente com as festas do tricentenário de Camões. Creio que serão brilhantes. O nosso conhecido Hermann fez aqui na minha ausência pelotices surpreendentes. Espero vê-lo quando tiver voltado de São Paulo. Hoje e todos estes dias muito tenho que ler para ficar um pouco em dia. Esta carta lhe será levada pelo paquete de amanhã de manhã. Esta noite já há um festejo teatral em honra de Camões. Faz calor. Amanhã ou depois chegará vapor francês. Ando sempre sôfrego de suas cartas. A impaciência é compa­rável a que tanto me fazia sofrer como você recorda em uma de suas cartas. Por que havíamos de viver tão longe um do outro? Se eu lhe aparecesse agora em Roma o que faria você? Eu transporto-me até lá nas asas da minha imagi­nação e aqui lhe mando tudo e tudo. Não se zangue comigo e console-me como quando me via aflito na […].[1] Aperte a mão de

Seu amigo de sempre

Ainda aqui lhe mando as minhas saudades – como brotão e rebrotão!

…………………………………………….

Alcindo Sodré. Abrindo um cofre. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1956.

[1] N.E.: Palavra ilegível.

FONTE: Correio IMS.
nº2Retrato_da_condessa_de_Barral_e_Pedra_Branca,_1865
D. Pedro II e a condessa de Barral: mais de 30 anos de amor e amizade.
Saiba mais sobre essa empolgante história em:
“Condessa de Barral – a paixão do Imperador“, de Mary del Priore. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2006.
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1 Comentário

  1. Betty Klein disse:

    Muito bonito o sentimento de D. Pedro II pela condessa de Baral, significa que o amor sobrevive as distancias…e que é muito parecido seja em que época for, viva ao amor o sentimento mais poderoso do Universo!

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