A homossexualidade feminina ainda choca?

Publicado em 19 de março de 2015 por - História do Brasil

Ah, o Brasil! Terra do carnaval, da nudez, da liberdade sexual…Será? Sempre fomos um povo muito contraditório nessas questões: apesar das aparências, podemos ser de um moralismo atroz. Um bom exemplo disso foi a reação exagerada ao beijo entre duas de nossas atrizes mais consagradas, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, na estreia da nova novela da Globo. A homossexualidade feminina ainda causa desconforto?

O amor entre mulheres estava presente em diversas culturas do mundo antigo. Os termos “lesbianismo” e “lésbica”, por sinal, têm origem na ilha grega de Lesbos, local de nascimento da poeta Safo (século VII a.C.).  Ela escreveu poemas de conteúdo erótico, dedicados à homossexualidade feminina. Embora os textos de Safo tenham sido queimados por ordem de Gregório de Nazianzus, bispo de Constantinopla, cerca de 200 fragmentos resistiram ao tempo e ao cristianismo.

A igreja católica combateu as práticas homossexuais de forma sistemática. A Inquisição perseguia aqueles que praticavam a sodomia, também conhecida como “abominável pecado nefando”. Nos tempos medievais, a expressão significava “excessos” na vida sexual, ou seja, tudo que fugisse ao que a Igreja considerava natural. A partir do século XIII, sodomia passou a ser entendida como “coito anal” entre homens ou entre homens e mulheres, mas ainda podia ser interpretado como relações entre pessoas do mesmo sexo. No século XVII, o Santo Ofício decidiu que o alvo de suas investigações seriam os homens, ou seja, os pecadores que deveriam ser mais duramente punidos eram os homens homossexuais. E as mulheres que amavam mulheres? Como a Inquisição agia em relação a elas?

Houve certa tolerância com os amores homoeróticos femininos na Europa. Não havia muitos relatos desta prática, e a maioria ocorria na vida da corte ou nos conventos. No Brasil, durante a primeira Visitação do Santo Ofício ao Nordeste (1591-1595), 29 mulheres foram arroladas por Heitor Furtado Mendonça como sodomitas. Segundo Ronaldo Vainfas, (“Homoerotismo Feminino e o Santo Ofício”, em História das Mulheres no Brasil), tais comportamentos eram difíceis de se distinguir das práticas do cotidiano feminino da Colônia. “Por outro lado, muitos namoricos não passavam de experiências de moçoilas recém-saídas da puberdade. A maioria das relações confessadas envolvia meninas de 9 e 10 anos, ou moças donzelas de 18 a 20 anos”, diz.

Várias mulheres adultas, casadas ou viúvas, também confessaram intimidades com amigas de infância. Vainfas também relata que havia mulheres casadas que preferiam o amor de outras mulheres. “Dos raríssimos processos de sodomia feminina julgados pela Inquisição Portuguesa, a maioria é proveniente da visitação de Heitor Furtado. Nas décadas seguintes, nenhuma mulher seria processada por sodomia no Reino ou na Colônia. E, lá pela metade do século XVII, a Inquisição praticamente abriria mão da jurisdição sobre este crime, considerando que as mulheres eram incapazes de praticá-lo por razões anatômicas”, diz Vainfas.

As mulheres eram, em geral, mais discretas em suas relações homoeróticas e, salvo algumas exceções, raramente eram flagradas durante os atos “pecaminosos”. Outra questão é o relativo desinteresse da Igreja por este tipo de comportamento, que era, muitas vezes, ignorado pelos inquisidores. A sexualidade feminina era um mistério naqueles tempos, e, muitas vezes, causava medo e curiosidade nos homens. No século XIX, a homossexualidade começa a ser vista como doença que precisava ser tratada. As mulheres que fugiam do padrão considerado “normal” de comportamento (ninfomaníacas, lésbicas, adúlteras, etc.) eram classificadas como “histéricas”. Consideradas muito vulneráveis a paixões, muito sensíveis, e de vontade fraca, era preciso vigilância para que não se perdessem – o casamento era o melhor remédio. Medicina e Igreja se aliaram na tentativa de “normatizar” a vida sexual feminina.

A literatura nos mostra como temática era abordada na época. “Amar, gozar, morrer”, vendida a três mil réis na livraria Cruz Coutinho, da capital, conta a história da jovem Amélia que tem sua iniciação sexual com a mãe adotiva, uma bela e jovem condessa. As várias passagens homossexuais eram indicadas por subtítulos do tipo, “O que faziam duas mulheres novas e belas em uma noite de primavera”. Apesar da sucessão de “noites de lubricidade”, o texto não deixa dúvidas: o “verdadeiro idílio” só ocorre com a penetração do membro masculino. Mas enquanto ele não chega, eis o que vivia a jovem Amélia:

“Oh! Deuses imortais, o meu desejo realizara-se. Os seus lábios tocavam-me pela primeira vez, a mais sensível parte do meu ser. Junto da minha boca tinha a condessa sabido colocar idêntico lugar. Os lábios rosados, semi-abertos, pareciam sorrir-me unindo-se-lhe aos meus [… ] Então sucederam-se as convulsões, os suspiros, os êxtases. Então não podendo articular uma só palavra, sob pena de nos privarmos de tanto gozo, concentrávamos toda a nossa atenção naquele ponto. Sentia-me desfalecer, a língua da condessa matava-me […] O prazer era superior às nossas forças e caímos desfalecidas sem poder articular o mais breve som”.

A condessa, apesar de ter apenas 25 anos, por força de tantos prazeres vê os cabelos ficarem brancos, o peito, mirrado, os braços descarnados. Estava perto do “sopro da morte”. E para evitar o mesmo fim trágico para Amélia, avisa-lhe: “Os combates do amor foram criados para indivíduos de sexo contrário. Esses cansam, fatigam, mas não matam…Foge das mulheres, minha filha, tens em mim um terrível exemplo, sofro muito…muito”. A lição de moral, como se vê tardava, mas, não faltava. E podiam ter como alvo, as recém-internadas nos colégios elegantes para moças, sob a direção de religiosas francesas e belgas, palco para amizades amorosas, que começavam com a proteção das mais velhas às novatas, nos conta Mary del Priore, em “Histórias Íntimas”.

Nos século XX, as mulheres que preferiam outras mulheres continuaram a ser discriminadas. As obras que abordam o assunto, e não eram muitas, apresentam dois tipos de personagens: “as viciadas”, lésbicas em tempo integral. E as eventuais, heterossexuais que, de tempos em tempos, se entregavam a uma mulher. Para além da literatura, pouco se sabe sobre o universo amoroso das homossexuais femininas. Luís Mott, autor do único livro específico sobre o lesbianismo nos anos 50 e 60, reconhece a falta de informações.

Segundo Mary del Priore, o preconceito contra a mulher homossexual era brutal: perda dos filhos, no caso das casadas; insegurança econômica, no caso das remediadas, brutal pressão familiar para que arranjassem namorados, noivos e maridos. “Mulheres brilhantes, como Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop, tiveram que viver sua relação às escondidas. Muitas burguesas fugiram para o interior. No Rio de Janeiro, Petrópolis acolheu alguns casais. Não foram poucas as espancadas por pais, maridos ou filhos revoltados com a situação. Não foram poucos os suicídios em que um bilhete deixado aos parentes, revela o desespero de jovens, massacradas com a intransigência familiar. É preciso esperar o final dos anos 70, para as “enrustidas” começarem a atuar politicamente e a falar de seus amores”.

– Márcia Pinna Raspanti.

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Beijo das atrizes causa reação negativa nos espectadores.

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2 Comentários

  1. Luciane disse:

    Bem interessante

  2. isa disse:

    Nao tem que critica,e apenas aceitar.

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