A família escrava

Publicado em 7 de dezembro de 2013 por - História do Brasil

Existiam diferenças entre casamentos de pessoas livres e de escravos. As primeiras podiam se casar quando quisessem ou pudessem. O fenômeno sofria interferência de sistemas de religiosidade popular, mitos e crenças, assim como do calendário agrícola ou litúrgico. O chamado “tempo proibido”, ou tempo de penitência, quando a Igreja desaconselhava toda manifestação de alegria e qualquer tipo de festividade coletiva, era observado em nossa população, sobretudo em áreas agrícolas: no Advento e na Quaresma, casamentos caíam quase a zero. Evitavam-se alguns dias para celebração das núpcias: sexta-feira, por exemplo, era tido por nefasto, desde os tempos medievais; o dia da Paixão e Morte do Cristo, considerado de mau agouro, pois trazia dores.

Já os escravos das plantations estavam sujeitos às atividades de semeadura e colheita. O calendário agrícola tinha grande influência na realização de rituais religiosos. Roças de alimentos com poucos escravos, por exemplo, demandavam ocupação de toda a família, inclusive de filhos e filhas casadoiros, fato que podia atrasar ou antecipar casamentos. A escravaria se casava na capela das fazendas em cerimônias seguidas de comezaina, batuques e uma “função” musical. A cerimônia seria frequente? Um observador, o viajante suíço J. J. von Tschudi, em 1860, responde:

“É muito raro haver entre os negros casamentos celebrados na igreja, mas o fazendeiro permite que os pares que se unem segundo oportunidade ou sorte, vivam juntos, sendo que o pronunciamento do fazendeiro basta para que eles se considerem esposo e esposa, numa união que raras vezes irá perdurar a vida inteira. As pretas em geral possuem filhos de dois ou três homens diferentes”.

Para além do preconceito manifesto, Tschudi certamente desconhecia as tradições africanas: muitas mulheres e muitos filhos, no continente de origem, eram considerados sinal de riqueza, fecundidade e felicidade. Todos, juntos, trabalhavam a terra do patriarca da família. A virilidade era atributo fundamental de honra de um homem. Já a fecundidade das mulheres, louvada nas mais variadas manifestações de arte: escultura, dança, pintura. A esterilidade feminina era vivida como uma maldição. Sem filhos, estás nu, dizia um antigo provérbio iorubá. Os homens lutavam pela esposa mais fecunda. O casamento, na África atlântica, por exemplo, podia tomar várias formas – do rapto da parceira por um indivíduo mais audacioso ao pagamento de dotes como indenização à linhagem familiar da mulher. Tal sistema permitia aos ricos e poderosos aumentar consideravelmente o número de esposas, fazendo da poligamia um privilégio. O grande número de esposas, por sua vez, permitia aos maridos respeitar o tabu da abstinência sexual, ligado à amamentação dos pequenos, quando de um nascimento.

É muito provável que tais tradições, profundamente arraigadas, tivessem se transferido para a colônia, incentivando um tipo de família diversa da que possuíam os portugueses. Ou, apesar dos casamentos de escravos com festa e batuque, diferente da que desejava a Igreja. A possibilidade de recriar hábitos em terra estrangeira foi característica de nossos avós africanos. De qualquer modo, casamentos que não duravam e filhos de pais variados não eram, absolutamente, características dos grupos afrodescendentes, mas da sociedade como um todo.

Não há dúvidas, por outro lado, de que os afrodescendentes tivessem seus rituais de sedução e enamoramento, receita certa extraída de falares africanos. Câmara Cascudo destaca o verbo kutenda: pensar em alguém, sentir saudades. Sobre o cafuné, conta-nos o etnógrafo, trata-se de hábito africano trazido de ancestrais angolanos: “Catar alguém é um dever afetuoso e demonstração de bem-querer”. “Eu só quero mulher/que faça café/não ronque dormindo/e dê cafuné”, cantam os antigos. Manuel Querino lembra, dentre as práticas amorosas, a especificidade da magia, que empregava folhas para produzir infelicidades ou para fins libidinosos, tomadas em potagens ou em forma de remédios tópicos. Graças ao feitiço, ou ebó, colocado em lugar previamente escolhido, chamava-se o nome da pessoa a quem se queria atingir.

No campo da violência entre casais, a historiadora Sílvia Lara recuperou histórias de escravos que matavam senhores ou homens livres da vizinhança por “afronta que estes lhe faziam andando amancebados com suas mulheres”. Não faltavam agressões por ciúme, uma vez que havia menos mulheres nos quilombos e plantéis. Inúmeros processos-crime registram agressões de forros ou libertos que reagiam às “velhacarias” das companheiras. Esses Otelos não perdoavam.

O caso de Miguel Moçambique é emblemático das tensões que atravessavam os amores de então: Miguel já cumpria pena, trabalhando para o Arsenal da Marinha, quando conheceu a preta Justina, que visitava com frequência Ilha Grande para vender alfinetes, agulhas e outras miudezas, além de se encontrar com ele. O sentenciado explicou no interrogatório a que respondeu que ajudava muito a dita escrava. Disse que mesmo os jornais que recebia da Marinha pelos serviços de carpinteiro, bem como o dinheiro recebido pela venda de chapéus de palha, que fazia em momentos de folga, gastava-os com Justina. Dava-lhes vestidos, saldava suas dívidas, e ainda, vez por outra, pagava os jornais que esta devia à senhora dela. Mas soubera que Justina o traía com um marinheiro “que a tinha sempre que queria”. Certa tarde, tendo sido levado ao porto, acorrentado a um outro preso, para trabalhar, Miguel pediu ao sentinela para falar com a escrava. Discutiram. Uma testemunha só o viu puxando pelas pernas de Justina enquanto a cobria de facadas. Aos 36 anos, foi condenado às galés para sempre.

Por certo que não era um mundo cor-de-rosa este em que se movimentavam nossos avós de origem africana. O sistema era cruel. Ele separava famílias, amigos e amantes, esposa e marido. Multiplicava violências. Mas não só. Os arquivos demonstram, com documentos, que casais houve para contrariar a regra – companheiros no cativeiro e no casamento que, longe da equivocada “licenciosidade das senzalas”, comprovam o sentimento no interior dessas uniões.

Mary del Priore

rugendas

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