A Eva Pecadora

Publicado em 4 de junho de 2014 por - História

Numa obra clássica, o historiador francês Jean Delumeau demonstrou que entre os séculos XII e XVIII a Igreja identificava na mulher, uma das formas do mal sobre a terra. Tanto a literatura sacra, quanto profana, descrevia-a como um superlativo de podridão. Quer na filosofia, quer na moral ou na ética do período, ela era considerada um receptáculo de pecados. Os mistérios da fisiologia feminina, ligados aos ciclos da lua, ao mesmo tempo em que seduzia os homens, os repugnava. O fluxo menstrual, os odores, o líquido amniótico, as expulsões do parto e as secreções das parceiras os repeliam. O corpo feminino era considerado como fundamentalmente impuro. Pólo negativo, portanto, na dicotomia com que era interpretado.

“Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e traiçoeira a mulher era acusada pelo outro sexo de ter introduzido sobre a terra o pecado, a infelicidade e a morte. Pandora grega ou Eva judaica ela cometera o pecado original ao abrir a caixa que continha todos os males ou ao comer do fruto proibido. O homem procurava uma responsável pelo sofrimento, o fracasso, o desaparecimento do paraíso terrestre e encontrou a mulher. Como não desconfiar de um ser cujo maior perigo consistia num sorriso? A caverna sexual tornava-se, assim, uma fossa viscosa do inferno”, explica Delumeau .

Na Idade Moderna, a religião projetou sobre a sexualidade feminina a noção de que ela era o lugar do conflito entre as forças do Maligno e a potência de Deus. O corpo feminino induzia ao sono da alma, empurrando, inelutavelmente ao pecado. A mulher se encontrava, então, imersa numa feminilidade cuja significação aparecia numa perspectiva escatológica. Culpada pela queda e conseqüente expulsão do paraíso, só lhe restava se dedicar a pagar seus pecados pela contemplação de Deus, pela continência, pela domesticação de seu desejo. Daí que, entre os séculos XVII e XVIII, a busca da definição da natureza feminina teria para médicos e físicos, uma função normativa.

Enquanto as imagens negativas se acumulavam, em 1559, um outro Colombo – não Cristovão – mas Renaldus, descobria outra América, ou melhor, outro continente: o “amor Veneris dulcedo appeletur” , o clitóris feminino. Como Adão, ele reclamou o direito de nomear o que tivera o privilégio de ver pela primeira vez e que era segundo sua descrição, “a fonte do prazer feminino”. A descoberta, digerida com discrição nos meios científicos, não mudou a percepção que existia, há milênios, sobre a menoridade física da mulher. O clitóris não passava de um pênis miniaturado, capaz, tão somente, de uma curta ejaculação. Sua existência, apenas endossava a tese, comum entre médicos, de que as mulheres tinham as mesmas partes genitais que os homens. Só que – segundo Nemésius, bispo de Emésia no século IV – “elas as possuíam no interior do corpo e não, no exterior”.

Galeno que, no século II de nossa era, se esforçara por elaborar a mais poderosa doutrina de identidade dos órgãos de reprodução, se empenhou com afinco em demonstrar que a mulher não passava, no fundo, de um homem a quem, a falta de calor vital – e, portanto, de perfeição – conservara os órgãos escondidos.  Nesta linhagem de idéias, a vagina era considerada um pênis interior, o útero, uma bolsa escrotal, os ovários, testículos e assim por diante. Ademais, Galeno invocava as dissecações realizadas por Herófilo, anatomista de Alexandria, provando que uma mulher possuía testículos e canais seminais iguais aos do homem, um de cada lado do útero, só que os do macho ficavam expostos e os da fêmea eram protegidos.

A linguagem consagrava essa ambígua visão da diferença sexual. O teólogo Alberto, o Grande, por exemplo, em seu De secretis mulierum, obra que teve enorme sucesso e múltiplas traduções, revelava que tanto o útero quanto o saco escrotal eram associados à mesma palavra de origem: “bolsa” “bursa” “bource”, purse”. Só que, no caso do órgão masculino, a palavra tinha também um significado social e econômico pois remetia à Bolsa, lugar de congraçamento de comerciantes e banqueiros. Lugar, por conseguinte, de trocas e ação. No caso das mulheres, o útero, descrito como uma bolsa, era denominado “madre ou matriz” e associado ao lugar de produção: “as montanhas são matrizes de ouro”! Logo, espaço de espera, imobilidade e gestação.

Os médicos portugueses, alheios na sua grande maioria às descobertas científicas que começavam a se delinear no restante da Europa a partir do século XVII, se limitavam a repetir os chamados antigos – Aristóteles, Plínio, Galeno, Alberto o Grande – dizendo que a matriz ou madre “é o lugar em cujo fundo se acham aqueles corpos vesiculares que os antigos chamavam testículos e os modernos chamam ovários”. Herdeiros da tradição medieval, tais doutores insistiam em sublinhar a função reprodutiva da madre, excluindo o que não tivesse finalidade reprodutiva. A função do “amor Veneris dulce apellatur” não era se quer invocada. Não lhes interessava nem remotamente se a mulher tinha prazer ou não. Entre eles, a entranha, mal descrita e mal estudada – comparada à peras, ventosas e testículos – acabava por reduzir a mulher à sua bestialidade.

Eles repetiam igualmente, como Platão, que tal como um animal vivo e irrequieto, – “animal errabundo”, segundo Bernardo Pereira – a madre era capaz de se deslocar no interior do corpo da mulher, subindo até a garganta e causando asfixia. Quando não se movimentava, emitia vapores ou “fumos” capazes de infectar “o cérebro, o coração, o fígado, o cepto transverso” por meio de “humores viciosos que detidos no útero” apodreciam, adquirindo má qualidade.

Acreditava-se, ainda, que a madre se alimentava de sangue e “pneuma” e que o espírito vital, emitido pelo homem, encarregado da fecundação chegava-lhe através de uma grande artéria que desceria do coração ao longo da coluna vertebral. No processo de fecundação, a fêmea era um elemento passivo. Comparada por alguns médicos às galinhas, tinham por exclusiva função portar os “ovos”.

Mas por que seriam as mulheres incapazes de procriar, cabendo-lhes apenas a tarefa de carregar e fazer amadurecer o fruto, numa analogia com a natureza? Invocando Aristóteles, Francisco da Fonseca Henriques dizia que elas não tinham “matéria seminal prolífica” e tão somente concorriam para a geração com o “sangue mênstruo” que alimentava a criança. “A mulher – dizia – é um animal imperfeito e passivo, sem princípio e vigor eficiente, razão porque os bárbaros lhe chamam animal acessório”. Entendia-se que para cumprir sua função de portadora de “ovos”, a madre tinha dois orifícios: um exterior, chamado de collum matricis, no qual o coito se realizava, outro, interior, os matricis. Este, segundo Hipócrates, fechava-se na sétima hora seguida à concepção, tão hermeticamente quanto uma bolsa, e nem a ponta de uma agulha poderia penetrá-lo.

Segundo esta mesma tradição, a madre era fria e seca, prova de sua inferioridade face ao membro masculino, quente e úmido, provida de pilosidades internas – as masculinas, externas – e dotada de sete compartimentos distintos. Três à direita onde se engendravam meninos, três à esquerda onde cresciam meninas e um no centro, reservado aos hermafroditas. Uma das características da madre era a sua capacidade de amar apaixonadamente alguma coisa e de aproximar-se do membro masculino por um movimento precipitado, para de ele extrair de que buscar o seu prazer. Porém o aspecto mais tocante de sua personalidade era, segundo um doutor, “o desejo inacreditável de conceber e procriar “. – Mary del Priore.

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“Adão e Eva”, de Rubens.

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