A desgraça de uma pecadora

Publicado em 13 de setembro de 2015 por - História do Brasil

Copilado em linguagem atual por Luiz Ernesto Wanke.

(Retirado do diário do médico francês Raimundo Henrique des Genettes, que narrou ali sua viagem do Rio de Janeiro para Ouro Preto, fato ocorrido dia 8 de novembro de 1836. Esses manuscritos originais foram comprados no comercio de coleções em Curitiba por meu filho mais velho, Marcos Luiz Wanke na década de 70 e pertencem ao seu acervo).

Sua narração:

Com lágrimas de saudades despeço-me de Madame Marlière, do seu enteado Leopoldo e aproveitando a companhia do Sr. Manoel da Cunha sigo para o Presídio de São João Batista (hoje Visconde do Rio Branco, em Minas) onde cheguei no mesmo dia. Hospedo-me na casa do Coronel Geraldo, onde sou recebido com suma benevolência. A minha demora no arraial é pequena e nada há de curioso. Durante os dias no Presídio abrigo um sobrado no largo e nele me estabeleço para melhor trabalhar.

(A fazenda de onde Genettes saiu – hoje a cidade de Guidoval – pertenceu a Guido Marlière, um oficial francês fugido de Napoleão que veio junto com a Corte portuguesa. Mas Genettes não o encontrou porque ele tinha falecido naquele ano de 1836, três meses antes de sua visita. Marlière foi um grande sertanista brasileiro, somente comparado a Rondon, chefiou a Junta de Colonização dos Índios e Navegação do Rio Doce, cuja função era proteger os colonos pioneiros da Zona da Mata mineira do ataque indígena, promover sua aculturação, construir igrejas e contratar padres para ‘educar’ os nativos. Mas Infelizmente foram estas ações que extinguiram as etnias indígenas da Zona da Mata. Marlière estabeleceu seu comando em sua fazenda em Guidoval e a partir dali fundou vilas, explorou regiões selvagens dando nome a montanhas e rios).

Há momentos da vida em que somos atraídos como por um pensamento oculto, a algum lugar, a um sítio qualquer, sem que possamos prestar-nos conta do motivo que nos faz preferir esta ou aquela direção. Alguma coisa aconteceu assim, porque, contrariamente ao meu costume, tomei nesta tarde o caminho que se dobra a minha direita. Vou lentamente, a passo de meu animal e apenas caminhei trinta ou quarenta passos e gemidos pungentes como os de moribundos vieram ferir meus ouvidos e despertar minha atenção. Paro e escuto: conheço que os gemidos provem de uma capoeira fina que se estende a minha esquerda.

Esses gemidos ficam cada vez mais doloridos e mais perto de mim. Apeio-me e entro, não há porta. A um canto tições apagados e sobre três pedras, uma panelinha de barro, queimada e denegrida pelo fogo. Ao fundo, sobre um girao de varas com uma esteira em cima, uma menina de uns treze anos, magra e reduzida ao estado de consumição pela tísica pulmonar. O seu pulso febril anuncia-me que a morte está próxima. Os seus olhos brilham como estrelas rutilantes e deste brilho parece descortinar os abismos de além túmulo.

Coberta por uma camisa e saia apenas, as formigas cabeçudas já furaram esta roupa imunda e a pele está ferida em cem lugares. Antes de morrer, as saúvas vorazes atacaram este corpo, belo ainda, apesar da magreza e do marasmo. A moribunda fita-me e seus olhos fixam-se em mim, seus lábios murmuram: ‘água’!. Precipito-me sobre a panelinha e vou buscar o que ela quer. O córrego é perto e volto correndo, molho seus lábios que a espuma sangrenta mancha, enxaguo com meu lenço branco e dou-lhe um pouco de água a esta pobre menina que murmura um ‘Deus lhe pague’ que jamais me sairá da memória.

“Animo a menina”, dou-lhe esperanças que não tenho, digo-lhe que é moça e que reconquistará sua saúde. Também que achou um irmão, um amigo que vai buscar lhe os socorros que precisa, mas seu sorriso sinistro parece dizer-me que ela não crê nas minhas palavras. Enxoto novamente as formigas, mas elas voltam sem parar.

Monto a cavalo e vou até o arraial, muito perto. Salto em frente a um velho boticário, José Maria de Barros Alvino e ordeno-lhe que prepare um cordeal (xarope de ervas).

Enquanto José Maria providencia o pedido, vou para minha casa que fica em frente a sua farmácia, mando arrumar um quarto e um cama. Peço também uma rede para carregar a menina. Negam-me uma e outra coisa. A todas as minhas súplicas respondem que ela é tísica e que é muito perigoso. Já compreendo o segredo de tanto abandono, de tanta crueldade: é o medo desse mal que consome tantas existências.

Corro para achar o Coronel Geraldo, que mais ilustrado, empresta-me dois escravos e uma rede. Foi, necessário que eu, sob fé do juramento, atestasse que não havia perigo.

Passo na botica e levo o cordeal. Corro desta vez a pé, de tão perto que é, pois sou moço. Quando chego, ela não expirou. Dou-lhe algumas colheres deste xarope que diminuirá o fogo que abrasa seu peito. Oh, como ficou reconhecida! Uma lágrima corre destes olhos secos de tanto chorar. Sim, uma lágrima de gratidão que fará perdoar muitas faltas na presença de Deus.

Transportamos a menina para meu quarto. Um banho alivia as dores causadas pela voracidade das formigas, minha criada troca suas roupas, o cordeal acalma o peito e algumas colheradas de caldo a animaram para que durma. Dorme em paz, pobre menina, dorme sob a guarda de um amigo de poucas horas, mas que quer ser seu anjo da guarda!

Após duas horas, acorda. Ela pede-me para confessar, vou correndo à casa do vigário, peço para ouvi-la, mas é impossível. O medo e sempre o medo faz negar a pobre abandonada esta última consolação.

Volto horrorizado!

A menina em poucas palavras põe-me a par de sua história: filha de um fazendeiro do Pomba, cometeu uma falta e seu sedutor a abandonou. Seu pai a expulsou de casa sem nenhum recurso. Soube mais tarde que esse é o costume destas paragens em nome da defesa da honra. E pior, dessa relação teve sozinha um filhinho, na mata, que logo morreu.

Pelas três horas da madrugada deixava e existência. Eu apresentava-lhe a imagem de Deus crucificado. Sua mão apertava a minha e sua alma voou num sorriso terno, que me passei a dizer que Deus tinha perdoado a sua fraqueza.

O vigário não quis assistir seu enterro.

Os dois escravos do Coronel Geraldo levaram o corpo, acompanhado por mim, o único que não teve medo da infeliz.

Quem foi? – Raimundo Henrique des Genettes, foi expulso no Rio de Janeiro pelo capitão do navio francês Minerva, onde era médico de bordo, por ter assassinado um oficial num duelo no Senegal. Acabou se naturalizando brasileiro. (Liberal, participou na França da Revolução de 1830 e no Brasil, da Revolução de 1842, aquela do Theofilo Ottoni). Descobriu e explorou minas de ouro e diamantes no Rio Jaguara. Pioneiro em Uberaba chegou a ser prefeito. Desolado pelo falecimento de sua mulher, foi ser sacerdote católico na região do hoje Distrito Federal. Ali foi um padre ativo, explorou a região, fazendo o primeiro levantamento geológico de Brasília, descobrindo a ‘Cidade de Pedra’ de Pirenópolis e fósseis de animais pré-históricos. Assim como Marlière, outro injustiçado pela História de nosso país.    

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2 Comentários

  1. Claudio disse:

    Muito obrigado por disponibilizar o texto. Sou descendente do Dr. Des Genettes. Minha bisavó e filha de sua única filha emmelina. Já fiz um extenso estudo histórico de sua vida mas não tinha acesso a estes manuscritos. Gostaria de ler outros mais. Como acessar a fonte?

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