A criança negra no Brasil: em busca de sua História

Publicado em 19 de novembro de 2014 por - História do Brasil

As crianças brasileiras estão em toda parte. Nas ruas, à saída das escolas, nas praças, nas praias. Sabemos que seu destino é variado. Há aquelas que estudam, as que trabalham, as que cheiram cola, as que brincam, as que roubam. Há aquelas que são amadas e outras, simplesmente usadas. Seus rostinhos mulatos, negros, mestiços enfim, desfilam na televisão, nos anúncios da mídia, nos rótulos dos mais variados gêneros de consumo. Não é a toa que o comércio e a indústria de produtos infantis vêm aumentando progressivamente sua participação na economia nacional, assim como a educação primária tanto quanto o combate a mortalidade infantil são permanentes temas da política nacional.. O bem estar e o aprimoramento das relações pais e filhos são assunto constante de psicólogos, sociólogos, psicanalistas, enfim, de especialistas que além de trazer uma contribuição inédita para a melhor inserção da criança na sociedade, reproduzem seus conhecimentos em revistas e teses, propondo uma nova ética para a infância.

No mundo atual, essas mesmas crianças passaram de reis a ditadores. Muitas de suas atitudes parecem-nos incompreensíveis. Quase hostis. Uma angústia sincera transborda das interrogações que muitos de nos se faz sobre o que seja a infância ou a adolescência. E como se as tradicionais cadeias de socialização tivessem, hoje, se rompido. Socialização na qual os laços de obediência, de respeito e de dependência do mundo adulto, acabaram sendo trocadas por uma barulhenta autonomia. Influência da televisão? Falta de autoridade dos pais? Pobreza e exclusão social de uma imensa parcela de brasileiros? Mais. E se tudo isso secretasse, nas margens da sociedade, uma brutal delinquência juvenil, ou, mesmo se entre as famílias mais equilibradas nas quais a presença dos pais e o excesso de amor substituem a educação, gerando um profundo mal estar feito de incompreensão e brigas?

Ora essa quase onipresença infantil nos obriga, pois, a algumas questões. Terá sido sempre assim ? O lugar da criança negra na sociedade brasileira terá sido sempre o mesmo ? Como terá ela passado do anonimato para a condição de cidadão, com direitos e deveres aparentemente reconhecidos ? Numa sociedade desigual e vincada por transformações culturais, teremos, ao longo dos tempos, recepcionado nossas crianças da mesma forma ? Sempre choramos, do mesmo jeito, a sua perda? Que marcas trazem as crianças de hoje, daquelas que as antecederam no passado? Mas há, também, questões mais contundentes tais como, por que somos insensíveis às crianças negras que mendigam nos sinais? Por que as altas taxas de mortalidade infantil pouco nos interessam? Essas respostas, entre tantas outras, só a historia pode dar. Não será a primeira vez que o saudável exercício de « olhar para traz  » irá ajudar a iluminar os caminhos que agora percorremos, entendendo melhor o porquê de certas escolhas feitas por nossa sociedade.

No final do século passado, o trabalho infantil continuava sendo visto pelas camadas subalternas, como “a melhor escola”. Pais pobres, com renda inferior a meio salário mínimo, exigem que seus filhos trabalhem para incrementar os rendimentos do grupo familiar. “O trabalho – explica uma mãe pobre – é uma distração para a criança. Se não estiverem trabalhando vão inventar moda, fazer o que não presta. A criança deve trabalhar cedo”. E pior, hoje, afogados pelo trabalho, quase 60% desses pequenos trabalhadores, no Nordeste, são analfabetos e entre eles a taxa de evasão escolar chega à 24%; No sul do pais o cenário não é muito diferente. Trabalhando em lavouras domésticas ou na monocultura, as crianças interrompem seus estudos na época da colheita, demonstrando que estar inscrito numa escola primaria, não significa poder frequentá-la plenamente. Assim, o trabalho, como forma de complementação salarial para famílias pobres ou miseráveis, sempre foi priorizado em detrimento da formação escolar. Neste quadro, a criança negra e analfabeta, tornava-se uma espécie de testemunha muda, silenciosa, de seu tempo.

Como contar a história da criança negra no Brasil? As lições devem começar em casa: mestre Gilberto Freyre, em 1921, manifestava seu desejo de “escrever uma história do menino- da sua vida, dos seus brinquedos, dos seus vícios – brasileiro, desde os tempos coloniais até hoje. Já comecei a tomar notas na biblioteca de Oliveira Lima, – anotava, ele -: nos cronistas coloniais, nos viajantes, nas cartas dos jesuítas. Sobre meninos de engenho, meninos do interior, da cidade. Os órfãos dos colégios dos jesuítas. Os alunos dos padres. Os meninos mestiços. De crias da casa grande. De afilhados de senhores de engenhos, de vigários, de homens ricos, educados como se fossem filhos por esses senhores. É um grande assunto. E creio que só por uma história deste tipo – história sociológica, psicológica, antropológica e não cronológica – será possível chegar-se à uma ideia sobre a personalidade do brasileiro. É o menino que revela o homem”. Ora, o historiadores brasileiros têm que partir de constatações bem concretas, tiradas, na maior parte das vezes, das fontes documentais com as quais trabalham e da sua observação crítica da realidade para contar sua própria história.

Resgatar o passado significa, primeiramente, dar voz aos documentos históricos, perquirindo-os nas suas menores marcas, exumando-os nas suas informações mais concretas ou mais modestas, iluminando as lembranças mais apagadas.  E pela voz de médicos, professores, padres, educadores, legisladores que obtemos Informações sobre a infância, no passado; essa fala obriga, contudo, o historiador a uma crítica  e a uma interpretação de como o adulto retrata o estereotipo da criança ideal, aquela saudável, obediente, sem vícios, a criança que é uma promessa de virtudes.

Mas face a essas vozes adultas é preciso colocar-se algumas questões: será que, numa sociedade historicamente pobre e vincada tanto pela mestiçagem quanto pela mobilidade social, conseguimos construir tal modelo de criança ? Médicos e legisladores do inicio do século acreditavam que sim. Eis porque acabaram por criar, a fim de transformá-la, instituições de confinamento onde ao invés de encontrar mecanismos de integração, a criança “não ideal”, achou os estigmas definitivos de sua exclusão. Ela passou de “menor da rua” para “menor de rua” com todas as consequências nefastas implícitas nesse rótulo. Se no passado, esse sinal de Caim significou sofrimentos de todos os tipos de perseguição policial, elas reagem, hoje, pela afirmação cada vez maior a sua exclusão.

Outro problema para o estudioso da historia da criança negra:  para cruzar com tais representações teríamos restos do que foi a infância no passado? Será que o clima dos trópicos deixou sobreviver os restos materiais destas pequenas vidas, tais como berços, brinquedos, roupas, ou essas ausências apenas confirmam o quão fugaz é a passagem entre o tempo da infância e aquele do mundo adulto? Diferentemente de europeus ou americanos cujas culturas produziram, desde as épocas mais tardias, imagens, objetos e representações que nos contam sobre a infância, no Brasil temos que estar alertas a outro tipo de fonte para responder a essas questões. São, todavia sensíveis memorialistas como Pedro Nava, capazes de fazer reviver em seus textos, as cores, sons e cheiros do passado, que sugerem ao historiador um programa de pesquisas capaz de orientá-lo na busca do que tenha sido, para muitas crianças anônimas, ser simplesmente criança num país marcado por diferenças raciais e diferenças de condição social, mas vincado, igualmente, por uma identidade dada pela pobreza material que atingia ricos e pobres, escravos e livres. Ouçamos o que ele nos diz:

« O fumo e a bosta de cavalo postos na ferida umbilical foram os mesmos para todos ; os que escaparam e os que morreram do mal de sete dias. A boneca de pano velho e marmelada foi chupada por todos os meninos de Minas. Conhecidos ou não ( …) íntimos ou sem costume, uns com os outros – somos queijo do mesmo leite, milho da mesma espiga, fubá da mesma saca. Todos usamos o mesmo cagadoiro pênsil sobre o chiqueiro onde os porcos roncam (..) Os mesmos oratórios de três faces com o calvário encima e o presépio em baixo. Os mesmos registros de santos enchendo as paredes para impedir os mesmos demônios e os mesmos avante nas das noites de Minas. (…) Eram amigos como irmãos.. ».

Assim, os cuidados com o corpo, a alimentação, o brinquedo,  as formas de religiosidade, os laços familiares se constituem em grandes linhas de pesquisa que atravessariam, de um lado a outro, a sociedade brasileira, guardadas, certamente, as proporções e as especificidades dos diferentes grupos raciais, sociais e regionais. Através de temas presentes na memória e na recordação, associados à coleta de documentos capazes de nos aproximar da vida da criança no passado, podemos tentar reconstituir o seu quotidiano. Da técnica de pré-digestão de alimentos, embebidos na saliva dos adultos, à tradição da culinária africana, do pirão de leite com farinha seca e açúcar bruto; das brincadeiras entre os pés de cana e de café, à chupar fruta sob as árvores; do simbolismo dos ritos de batismo, primeiro entre escravos e livres, aos atuais “ungimentos” ou batismos em casa; também de outros simbolismos, aqueles em torno dos enterros: os nas biqueiras da casa, para criança pagã ou o cortejo dos anjos carregando pequenos caixões ataviados de papel prateado até as fotografias dos mortos nos colos de sua mães; dos banhos de rio, em Recife, aos banhos de mar, no Rio de Janeiro; de um mundo entrelaçado ao dos adultos e aos familiares, onde desfilavam os rostos dos avos, de tios e primos, de vizinhos e onde o levar e trazer recados, bem como a conversa eram nas recordações de um memorialista, “imprescindíveis como  a água, a farinha e o amor”.

Por fim, parece-nos evidente que querer conhecer mais sobre a trajetória histórica dos comportamentos, das formas de ser e de pensar em relação às nossas crianças negras, é também uma forma de amá-las, todas e indistintamente, melhor.

– Mary del Priore.

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Fotografia de Marc Ferrez, Instituto Moreira Sales; “O jantar numa casa brasileira”, de Debret. 

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1 Comentário

  1. Messias de Morais Junior disse:

    Maravilhoso texto!!!!!
    Não tem nem o que comentar!!!

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