A corrupção nos governos militares

Publicado em 4 de fevereiro de 2018 por - artigos

Apesar de ser a bandeira da “revolução” de 64, nenhum general conseguiu limpar o país da corrupção. Se o único patrimônio de Castelo Branco foi um Aero Willis preto e um imóvel em Ipanema; se Médici desviou o traçado de uma estrada para que ela não valorizasse suas terras e Geisel respondeu à esposa que queria um apartamento novo, “ – Se comprar esse apartamento vão dizer que estou roubando”, as “demonstrações de decência pessoal apresentaram parcos resultados para a vida pública do país” – como disse a historiadora Heloísa Starling. Ela enumera escândalos que vão desde a operação Capemi, (caixa de Pecúlio dos Militares) que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeira do Pará, os desvios de verba na construção da Ponte Rio-Niteroi e da Rodovia Transamazônica, à compra de adubo superfaturado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, às acusações de irregularidades na Federação Baiana de Futebol, entre outros. Nelson Mello e Souza concorda, acrescentando “o exemplo desanimador da Companhia Siderúrgica Nacional. Entregue a políticos, era um mar de desacertos e uma praia lodosa onde desaguavam prejuízos em cascata”.

“Tentativas de erradicar ou punir corruptos tiveram resultados pífios. Pior, a repressão corrompeu uma rede de colaboradores que iam de médicos a juízes. No DOI-Codi do Rio, o capitão Ailton Guimarães Jorge, uma vez acabada a “guerra suja” dedicou-se ao rentável jogo do bicho. Os chamados “crimes da chapa branca” faziam a manchete de jornais e revista. Um procurador atrás do outro, prometiam que “fraudadores da coisa pública não mais dormiriam tranquilos. Que a qualquer momento, oficiais de Justiça estariam batendo às suas portas. Em 1985, não eram poucos os escândalos: Sunaman, Assistência Médica da Previdência Social, Habitasul, Banco Nacional de Crédito Cooperativo entre outros”. Mas, tentativas de erradicar ou punir corruptos tiveram nenhum resultado, cravou Starling.

Por trás dos elogios ao presidente, vale lembrar: se a “linha dura” não mais atacou, tampouco foi punida, e Figueiredo foi perdendo a iniciativa. Em fins de 1983, renunciou a coordenação da própria sucessão, transferindo-a para o PDS, a esta altura, dilacerado entre várias tendências. Licenciado em julho, para se submeter a uma cirurgia para colocação de pontes de safena numa clínica em Cleveland, nos Estados Unidos, permaneceu 44 dias fora. A partir desse período se iniciariam as tratativas para a sucessão. Sucessão que, segundo Élio Gaspari, não viria da benevolência dos governantes, nem tampouco de intensa pressão social. Ela mascarava a falência do desempenho político-econômico dos militares.

     – Texto de Mary del Priore.

 

Maluf e Figueiredo

O então governador de São Paulo Paulo Maluf abraça o então presidente João Figueiredo. Foto: Acervo Estadão

 

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8 Comentários

  1. Walter Monte Rey disse:

    Marcia Raspanti,

    Há uns 20 ANOS, quando assistia reportagens sobre as máfias do Mèxico, recusava-me em até acreditar que aquele povo mestiço e extremamente religioso, passasse por esse terror.

    Hoje, já temos por aqui o que nos parece ainda INACREDITÁVEL, Ccom toda essa DESORDEM SOCIAL produzida, como FRUTO, como o LEGADO desses ingredientes do MAL EXEMPLO dos GOVERNANTES e de NOSSOS REPRESENTANTES no PARLAMENTO.

    Para DEUS, não há diferença entre pecado pequeno e pecado GRANDE.

    Mas, para nós pobres mortais, resta-nos as LEIS,
    mas …

    ” As leis abundam nos estados corruptos” ( TÁCITO )

  2. Walter Monte Rey disse:

    A corrupção existe em TODAS as ESFERAS, e não por isso devemos nos aprazer ou nos conformar com a ATUAL ROUBALHEIRA, tão habilmente ORGANIZADA.

    O fato é que a HONRA e a DISCIPLINA estabelecida nos PRECEITOS MILITARES, que nesse regime, direcionam RESULTADOS muito mais FAVORÁVEIS, associados ao AMOR a PÁTRIA, minimizando as falcatruas com a VIGILÂNCIA PERMANENTE.

    Daqui a pouco, os BANDIDOS se ORGULHARÃO desse ARTIGO, usando como referência para até vangloriarem-se de suas falcatruas, mesmo que ele não esboce nenhuma intenção de promover a admiração a corrupção,
    e nós jamais poderemos assimilar com conformismo tais atos corruptos que permeia o ambiente militar.

    Hoje, o nosso Brasil está fragmentado e o caos esta instaurando-se com a progressiva anarquia permitida nesses últimos 15 ANOS.

    • Márcia disse:

      A corrupção sempre existiu no Brasil (e no mundo), desde os primórdios da colonização. Durante a ditadura civil e militar, não foi diferente. Idealizamos o passado não vai ajudar a superar os nossos problemas.

  3. Rachel de Almeida Magalhães disse:

    Sobre a “compra de adubo superfaturado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais” – O então Procurador Geral do Estado de Minas Gerais, José Diogo de Almeida Magalhães, descobriu a falcatrua, fez a denúncia e estava trabalhando no caso, quando foi encontrado morto, a 7 de março de 1971, no poço do elevador do antigo Fórum de Belo Horizonte. As investigações sobre sua morte foram devidamente bloqueadas. Eu sei porque eu estava lá. José Diogo era meu pai.

    • Márcia disse:

      Muito triste o que aconteceu com seu pai, Rachel. Para quem acredita que não havia corrupção no tempo dos militares, é importante saber como esse tipo questão era “resolvida”. Obrigada pelo seu depoimento.

      • Francisco Rocha disse:

        Márcia.
        Você como jovem historiadora deve saber que desde o tempo dos sumérios, egípcios, persas , gregos e, romanos, etc existia corrupção.
        É do ser humano, a própria Mary del Priore comenta em uma entrevista
        que no início do século XIX se cobrava a “chupancinha” o pixuleco da época.
        Este tipo de questão , quando descoberta e afrontada também era resolvida de maneira violenta ao logo da história.
        Ainda hoje é assim no Brasil e pior que na época do regime militar.
        Naquele tempo sempre havia políticos por trás .
        No dia 31 de março de 1964 eu tinha exatos 10 anos de idade e acompanhava tudo no rádio junto ao meu pai que sempre foi ligado a ´presidência da república, tinha vários parentes políticos e militares na época.
        Sou engenheiro ,mas autodidata em história e desde criança leio tudo.
        Agora com a internet ficou mais fácil, passo madrugadas pesquisando.
        Vivi minha adolescência durante o regime militar e estou acompanhando tudo agora.
        Sou de tradicional família brasileira de origem portuguesa que emigrou de Portugal por volta de 1700, tenho muita história para contar e tenho “devorado” os livros da Mary e outros.Mas prefiro discutir sobre o recente regime militar com pessoas com mais de 60 anos que viveram aqueles dias…
        Grato

        • Márcia disse:

          Ok, Francisco. É uma opção sua discutir apenas com pessoas acima de 60 anos. Entretanto, esse artigo sobre a corrupção é de autoria de Mary del Priore e faz parte do material que ela utilizará no quarto volume da série “Histórias da Gente Brasileira”. Só quero destacar que, o fato de apontarmos a corrupção nos tempos da ditadura civil-militar, não significa obviamente afirma que não existia corrupção antes, nem que não existe hoje.

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