A Carta de Pero Vaz de Caminha: o “achamento” do Brasil

Publicado em 22 de abril de 2016 por - artigos

“Ervas compridas” chamadas “rabos de asno”, o grito de gaivotas, os contornos de “um monte” ao cair da tarde, indicaram aos membros da maior armada portuguesa jamais enviada às Índias, terem chegado a algum lugar desconhecido. O registro do fato foi cuidadosamente anotado na chamada “certidão de nascimento” do Brasil.

Revelada apenas no século XIX, a Carta de Caminha é considerada um dos documentos fundadores de nossa história. Há décadas, a denominação pomposa dada pelo historiador Capistrano de Abreu demonstra o sentimento que se tinha então: os portugueses teriam “descoberto” o Brasil. Hoje, se sabe que muitos navegadores europeus já tinham visitado as costas da América do Sul. E prefere-se o termo “achamento” usado por Caminha e interpretado por filólogos como uma espécie de busca proposital. E busca que iria definir o contato entre diferentes culturas.

A Carta trata da viagem da esquadra comandada por Pedro Alvarez Cabral, filho, neto e bisneto de conquistadores, mais militar do que navegador, então com 32 anos, até o Brasil. Tendo deixado Lisboa a 9 de março de 1500 pela manhã, Cabral seguiu os conselhos de Vasco da Gama: que aproveitasse melhor as correntes do Atlântico no rumo do Oeste. Alguns historiadores consideram que dois anos antes, Gama teria passado tão perto do Brasil que pode sentir sua presença. A continuação da viagem está relatada em outro documento importante, a Relação do Piloto Anônimo, realizada por um dos tripulantes da mesma frota, que inseriu a passagem pela então Terra de Vera Cruz, na longa aventura da viagem até o subcontinente asiático. Ao cotejar os dois textos, vê-se que a chegada às praias do recôncavo baiano não teve na época a importância que o tempo lhe consagrou.

Em vinte e sete páginas manuscritas e datadas de 1. de maio de 1500, o escrivão Pero Vaz de Caminha informa ao rei de Portugal D. Manuel, os principais acontecimentos ocorridos durante a estadia da tripulação no país, bem como as primeiras impressões sobre a terra. Terra povoada por cerca de três milhões de “índios”, assim chamados, pois, desde a chegada de Colombo à América, em 1492, se acreditava ter chegado às Índias.

Com precisão jornalística, Caminha narra os dez dias que passaram ao sul do litoral baiano: o primeiro contato no dia 23, o sono dos índios no tombadilho no dia 24, a lavagem de roupa no dia 26, a primeira missa no Brasil no dia 29, o erguimento de uma grande cruz até o dois de maio, em que deixaram na praia dois degredados aos prantos. De caráter informativo, a carta não traz informações científicas ou cosmográficas. Registra, sim, e de forma impressionista as primeiras reações ao novo. O início do que alguns teóricos denominam “a construção do outro”. Para descrever o desconhecido, lançava-se mão da comparação, sublinhando-se as diferenças. A esse inventário, Caminha se dedicou com afinco: os indígenas não saudavam as pessoas como os europeus. Eles eram “pardos de maneira avermelhados, andavam nus, tinham cabelos corredios”, “bons rostos e bom narizes”. Andavam “tosquiados e rapados até acima das orelhas” e carregavam arcos e flechas. Traziam furados os beiços de baixo e metidos neles ossos brancos. Sua inocência era confirmada pelo fato de não enxergarem seus corpos como instrumentos de pecado. Sobretudo as mulheres. Suas “vergonhas cerradinhas e tão limpas das cabeleiras” não embaraçavam o olhar guloso dos portugueses. E se as “mulheres de nossa terra” as vissem, morreriam de inveja por “não terem as suas como as delas”. Deram aos navegantes várias demonstrações de hospitalidade e bom tratamento. E ao som de uma gaita, dançaram juntos.

Outro recurso narrativo usado na época era a projeção. Os nativos seriam bons ou maus? Bons quando ajudavam. Quando indicavam que haveria ouro no interior. Quando auxiliavam a missa ou carregavam os navios com água e lenha. Maus quando se esquivavam e não queriam colaborar. Frente ao comportamento arisco e desconfiado dos indígenas, Caminha os relacionou a animais. Depois de tê-los exaltado – oferecendo elementos para que o filósofo francês, no século XVI, Montaigne desenhasse a imagem do bom selvagem – o escrivão começa a detratá-los: não agradeceram os presentes dados, não demonstravam gratidão, eram gente “bestial e de pouco saber”, nada criavam: nem bois, nem galinhas, nem cabras. Do ponto de vista de Caminha, seriam ou colaboradores ou empecilhos para a Coroa.

Caminha não registrou as inúmeras roças, a volta das tabas – pois os indígenas conheciam bem a agricultura. Tampouco observa que os índios não estranharam a troca de objetos – cocares por chapéus, por exemplo. Ele encerra a carta com sugestões: que os índios fossem convertidos. Era preciso “salvar essa gente”.  E que a terra servisse à agricultura. Rios límpidos e abundantes ajudariam a “dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. Os ares “frios e temperados” eram ótimos. Ouro, prata e metais? Nenhum à vista. O escrivão deixa a Terra de Vera Cruz sem perceber a riqueza do pau-brasil que no século seguinte azeitaria o comércio entre as duas margens do Atlântico.

Nascido no Porto, Caminha pertencia à família respeitável e exercia o ofício de mestre da balança de moeda como seu pai. Tinha cerca de cinqüenta anos quando se juntou à frota de Cabral com a missão de tornar-se escrivão na futura feitoria de Calicute, costa ocidental da Índia. Ali, morreria chacinado por comerciantes árabes, anos depois.

O documento teve uma trajetória curiosa. Publicado pela primeira vez, em 1817, mais de trezentos anos depois de ter sido redigido, ele apareceu, como parte da Corografia brasílica…, de autoria do padre Manuel Aires de Casal. Essa versão, porém, foi mutilada, pois susceptibilidades do religioso impediram-no de reproduzir passagens mais cruas. Uma cópia, guardada no Arquivo Real da Marinha, no Rio de Janeiro, teria sido transportada entre outros documentos trazidos por D. João VI, quando da transmigração da família real portuguesa para o Brasil. Antes, ela dormia nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, onde foi recuperada, em 1773, por ordem do guarda-mor José de Seabra da Silva, hoje considerado o descobridor da Carta de Caminha. Capistrano de Abreu foi quem a reconstituiu, em 1908, com todos os detalhes antes censurados ou truncados.

A Carta conquistou o público leitor além de estudiosos, teve várias edições e traduções em várias línguas. Ela não foi o único registro sobre a chegada ao Brasil. Como informa Caminha, “outros capitães”, inclusive Cabral, escreveram ao rei. Afinal, um “achamento” só fazia sentido quando sua descrição voltava para a Europa, influenciando a nação conquistadora. Nesse momento, o Brasil estava longe de interessar por si mesmo. Seria um lugar de passagem. Uma parada a caminho da conquista mais promissora: as Índias onde os aguardava as preciosas especiarias. E outras “façanhas e feitos nobres” que inflamavam a imaginação.

  • Texto de Mary del Priore.

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Bibliografia:

BUENO, Eduardo. “Brasil, uma história, a incrível saga de um país”, São Paulo, Ática, 2003.

——-, A viagem do descobrimento: a verdadeira história da esquadra de Cabral, Rio de Janeiro, Objetiva, 1998.

O’GORMAN, Edmundo. “A invenção da América”, São Paulo, UNESP, 1992.

CORTESÃO, Jaime. “A carta de Pero Vaz de Caminha”, Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1943

AMADO, Janaína e Luís Carlos Figueiredo, “Brasil, 1500: 40 documentos”, Brasília, EDUNB, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. “O descobrimento do Brasil”, in História Geral da Civilização Brasileira, tomo I, São Paulo, Difel/Difusão Editorial S.A.,1976.

TODOROV, Tzvetan. “A conquista da América”, a questão do Outro, São Paulo, Martins Fontes, 2010.

 

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1 Comentário

  1. Maria de Fátima dos Santos disse:

    Maravilhoso e simples de entender. O tipo de leitura que me “segura”…

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