A “Boa Morte” nos tempos coloniais

Publicado em 2 de novembro de 2013 por - História do Brasil

No Dia de Finados, uma reflexão a respeito de como era encarada a morte nos séculos XVII e XVIII, no Brasil. Os manuais de “bem morrer”, que ensinavam o cristão a forma correta de proceder neste momento tão temido, representam uma ótima fonte de pesquisa para o historiador.

Neste período, a Igreja procurava mostrar que o fim da vida não deveria aterrorizar o ‘verdadeiro’ cristão – já que, se as medidas necessárias fossem tomadas, a salvação estaria garantida. Acreditava-se popularmente que o destino da alma poderia ser decidido no quarto do moribundo, nos últimos momentos. “As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707” ressaltam a importância da Extrema Unção. Havia também obras de literatura e arte edificantes que ajudavam o fiel a “bem morrer”, sendo muito populares no Brasil Colônia.

O Padre Antônio Vieira, no Sermão da Quarta-Feira de Cinza”(1673), falava sobre as providências que o fiel deveria tomar para se preparar para os últimos momentos:

“Primeiramente (que isso deve ser o primeiro) confessa-se geralmente toda a sua vida, arrepende-se de seus pecados, compõe do melhor modo que pode as suas dívidas, faz seu testamento, deixa sufrágios pela sua alma, põe-na inteiramente nas mãos do padre espiritual, abraça-se com um Cristo Crucificado, e dizendo como ele: Consummatum est, espera pela morte”.

Vieira destacava, porém, que isso não era suficiente para uma “boa morte”. Era necessário morrer em vida, ser indiferente ao mundo e aos seus enganos. Uma vida justa piedosa, dedicada a Deus, levaria a uma morte tranquila e segura. A Igreja procurava mostrar que a vida deveria ser uma preparação para a morte: o homem que vivesse cada momento para Deus, e morresse para o mundo, ganharia a salvação. O verdadeiro cristão não poderia temer a morte, devendo, até mesmo, desejá-la. “Viver bem para morrer bem”.

Esta ideia foi adotada com a Contrarreforma e procurava mudar a noção de que o destino da alma poderia ser resolvido na hora da morte. O que se procurava demonstrar era que o fiel precisava dedicar-se às práticas religiosas regulares, à devoção diária, renunciando aos prazeres do mundo. Ou seja, o verdadeiro cristão deveria ser provado todos os dias e não apenas nos derradeiros momentos. – Márcia Pinna Raspanti.

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Representações do maior terror dos cristãos: “Afresco do Inferno”, de Giovanni da Modena (1410); e “O Inferno”, dos irmãos Limbourg (1410-1411).

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5 Comentários

  1. Dino Monteiro Miachon disse:

    Esta matéria fez-me recordar dos tempo do curso primário, quando na aulas de religião (no meu caso católica), com seus catecismos a nos mostrar os terríveis espinhos dos caminhos do céu em contrapartida às delícias dos caminhos do inferno!!!

  2. Suzana Guerra Albornoz disse:

    Uma outra leitura que essa matéria me recordou e que pode ser boa indicação para a data de hoje é o livro OS VIVOS E OS MORTOS na sociedade medieval, de Jean-Claude Schmitt(tradução brasileira pela Companhia das Letras, 1999.

  3. Luciene Paes disse:

    otimas informações!!Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte no centro do Rio vale uma visita!

  4. Francisco Isaac disse:

    Essa matéria me lembrou muito a igreja do nosso senhor do Bonfim na Bahia. Lá nesta igreja tem uma representação pictórica do bem morrer, como também uma
    representação de como seria uma morte ruim para um cristão sem fé.
    Também lembro do clássico trabalho do professor João José Reis “A morte é uma festa” da Cia. das Letras. Ótima leitura a todos, bom feriado de finados… Rsrsrstststs

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