A beleza das mulatas: sensualidade e preconceito

Publicado em 5 de agosto de 2014 por - História do Brasil

As evoluções com o corpo e a roupa eram formas eficientes de atrair olhares masculinos. As esposas dos comerciantes ricos, além de usarem sempre meias de seda e sapatos, “mostravam-se particularmente hábeis e cuidadosas na decoração de suas pernas e pés, que são geralmente pequenos e de bonita forma”, diz, em 1829, o reverendo Walsh com ar de entendido.  Cobertas de cima embaixo, as mulheres tiravam partido do olhar, dos gestos com as mãos e do ondular do corpo, numa linguagem muda que falava mais do que as palavras.

No século XIX, surge também o culto à beleza da mulata. Alexandre Mello Moraes Filho, nacionalista e compilador da poesia brasileira, escreveu um poema em que se explicita a visão do homem branco sobre a mulata: seu orgulho, seu senso de superioridade frente às brancas ciumentas, seus atrativos e inclinações amorosas. “Linda”, “faceira”, dona de um seio moreno; como o jambo cheiroso que pende do galho frondoso”, “dança num bamboleio”, tem “pulsos delicados”, é princesa e rainha cujo único senhor é o “Senhor do Bonfim” . A atração do branco pela mulata inspira-se nas lendas das princesas mouriscas para consolidar-se na intimidade proporcionada pela servidão de escravas. Os atrativos do corpo da mulata vão ganhar força ao longo do século XIX. Como veremos mais adiante, o maxixe, bailado surgido no início do século XX irá projetar as coreografias exóticas das quais o corpo negro ou mulato é o suporte.

Hedonismo, sensualidade e liberdade irão, enfim, confundir-se. A melhor representação destes atrativos está no quadro “A carioca”. A tela famosa, pintada entre 1862 e 1863 por Pedro Américo. O que deveria ser uma alegoria do rio Carioca revela uma náiade despida e sobretudo, “trigueira”. O Mordomo Mor da Casa Imperial, Paulo Barbosa, recusa o quadro por considerá-lo licencioso. A ninfa nua, longe de aproximar a pátria brasileira da tradição europeia, caminhando na direção oposta à selvageria, remetia à pobreza e bestialidade de que já falamos. A mulher de sangue misto, símbolo do hibridismo racial na moda, nua como deus lhe pôs no mundo, remetia não à “ordem e progresso”, mas ao desregramento sexual. Os longos cabelos escuros, olhos negros e pele morena nada tinham a ver com a beleza greco-romana que encheu de nus depilados os Salões de Artes na Europa. Desejável? Sim. Mas a Carioca era a imagem do atraso e do não civilizado. E sua nudez continuava a ser sinônimo de pobreza.

A beleza popular, inculta, plebeia, poderia até ser bela, mas não seria nunca aceita como tal. Beleza e elegância, no século XIX, eram uma coisa só. Em um país escravista, a noção de beleza associada à roupa se estendeu às mulheres negras e mulatas. Em 1849, o pintor Edouard Manet atribuiu o conceito de feias às que viu “nuas da cintura para cima”, trazendo no máximo “um pano de seda preso ao pescoço e caindo sobre o peito”. As “bastante bonitas” eram aquelas que, segundo ele, “traziam turbantes” ou “carapinhas artisticamente arranjadas”, usavam turbantes e saiotes enfeitados com imensos babados. Era como se a nudez excluísse as primeiras da estima social, pois não havia, então, separação entre a roupa e a condição do indivíduo.  A moda já era um princípio de leitura do mundo. Vestidas, as negras se apropriavam, à sua maneira, da economia de luxo de outros grupos, suscitando e, ao mesmo tempo, prolongando o desejo de consumo que aqui já existia. – Mary del Priore.

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“Mulata”, de Di Cavalcanti. 

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