A bela atriz e o país de m****

Publicado em 18 de julho de 2015 por - temas atuais

Nos últimos dias, causaram alvoroço nas redes sociais as declarações de uma jovem atriz que afirmou que o Brasil é um país de m***, que vivemos na m*** e que ela chegava já desesperada para ir embora. O motivo foi uma taxa cobrada pela Receita Federal por um computador trazido na bagagem. Segundo a moça, ela teve que pagar o imposto duas vezes indevidamente. O “desabafo” gerou polêmica: muitos concordaram, outros tantos se indignaram com a grosseria. Bem, aqui não nos interessa saber se ela está certa ou errada, mas podemos fazer algumas reflexões, a partir do acontecimento banal.

Em primeiro lugar, existem regras para entrar no país com produtos comprados no exterior- como em qualquer lugar. E são bem conhecidas por quem costuma viajar. Se ela não as seguiu, seria esperado que sofresse as consequências, não é? A história teve várias versões: em uma delas um funcionário teria preenchido o formulário de maneira errada, em outra a falha teria sido do sistema. Acho que nunca saberemos o que aconteceu. Mas o que me chama atenção é a postura da atriz e de seus admiradores, aliás muito comum no Brasil.

Parece que, no fundo, todos acreditamos que determinadas pessoas não deveriam ser submetidas às mesmas regras que as outras. Por que não “deixar para lá”? Por que não aceitar a justificativa da moça famosa e rica? Teria evitado todo esse  problema. E quanto a ela, por que voltar-se com fúria contra todo um país, todos os brasileiros, todas as instituições? Ninguém gosta de pagar impostos, muito menos duas vezes, mas a indignação não foi exagerada? Façamos um exercício de imaginação: se o funcionário da Receita ignorasse a lei e a livrasse do pagamento da taxa, por causa de seu status de pessoa famosa, ela teria se revoltado contra todo o país? Arrisco-me a dizer que não.

O Brasil é o país do “jeitinho”. Desde o início da colonização, as regras que vinham de Portugal precisavam ser adaptadas à realidade local. Era preciso fechar os olhos em várias situações. Brancos só podiam casar com brancos. Mas, como faltavam mulheres brancas por aqui, fazia-se uma certa “adaptação” nas árvores genealógicas, apagando as “manchas”. Ser branco era não ter sangue negro ou judeu, e não ter parentes que executassem serviços mecânicos (trabalhos braçais). Muitas uniões foram realizadas após o “branqueamento” das origens da noiva (ou noivo). Isso salvava as aparências…

Outra questão antiga é que a justiça não alcança todos da mesma forma. Quando lemos os processos do Santo Ofício no Brasil, observamos que as penas aplicadas eram bem mais severas para a “gente de cor” e os pobres. Mesmo no que se refere ao adultério, as Ordenações Filipinas faziam distinção de classe: o marido traído poderia matar a esposa e o amante, desde que esse último não fosse de condição social superior. Sim, é verdade que eram outros tempos. Porém, será que nos desvencilhamos dessa tradição?

Já falamos em outras ocasiões sobre esse tema. A nossa sociedade, de forma geral, persegue a segregação, o privilégio. A obsessão dos “fidalgos” da Colônia era marcar de forma clara a distância que havia entre eles e a “arraia miúda”. E para isso, abusavam de joias, roupas de luxo, escravos. Os pobres tentavam imitá-los: ter um escravo que fosse, já era motivo de orgulho, era uma forma de rejeitar a pecha da miséria. Hoje, continuamos a querer ser “gente diferenciada”, nos distanciar do “povão”, que julgamos ser pobre, preguiçoso, mal educado…É o famoso “sabe com quem está falando??”

Sim, o Brasil tem problemas e não são poucos. Entretanto, achar que está  acima das leis e criticar o “jeitinho” apenas quando ele não nos favorece não contribui em nada para melhorar a situação, não é?- Texto de Márcia Pinna Raspanti.

francesasXVIII

“História do Vestuário”.

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7 Comentários

  1. terezinha alves mori disse:

    Concordo com o texto que deu origem a esse debate, concordo com as opiniões dos meus colegas. Só não concordo com a atitude da atriz, que eu nem sei quem é ( ando meio por fora de tais noticiários), mas sei que ela representa uma parcela significativa da nossa população que se acha acima do bem e do mal porque de alguma forma tem visibilidade, é formador de opinião, possui inúmeros seguidores nas redes sociais e por aí vai…
    Como uma pessoa comum, bem fora dos padrões comportamentais atuais, sei que a saída não é sair do Brasil, não é burlar as leis, pois as mesmas são resultantes das conquistas sociais, portanto, deveriam ser respeitadas. Repito, como pessoa comum pagos os meus impostos, que a maioria nem sei para que servem, e isso me dá o direito de reclamar e exigir mudanças naquilo que considero injusto e que precisa ser mudado. Contribuir para tornar o meu país mais justo para se viver e não sair dele.
    Essa concepção de querer levar vantagem aqui e ali, as pequenas transgressões cotidianas, as “carteiradas”, ou o “sabe com quem está falando” refletem ainda um tipo de mentalidade que precisa ser mudada. A educação está aí para isso ! Para todos !

  2. Ricardo disse:

    Fui pobre durante toda a minha infância e juventude. Conviví com pessoas pobres num universo pobre. E posso afirmar com conhecimento de causa que os pobres são os que mais se beneficiam do chamado jeitinho. Justamente por ser uma questão de sobrevivência. A única maneira que eles têm de conseguir as coisas é aplicar a famosa malandragem, o que é motivo de orgulho pra eles. Nasceram e cresceram vendo seus pais, irmãos e amigos desenvolvendo e praticando essa habilidade. Quando eventualmente conseguem prosperar e alcançar posições econômicas mais elevadas, elevam também o grau e a frequência dessa prática. E a propósito, por mais pobre que alguém seja, sempre vai se considerar superior e com mais direitos do que algum semelhante. O mulatinho vai se achar superior ao de pele mais escura. O que mora no Méier vai se achar superior ao que mora do outro lado do bairro que é cortado pela linha do trem. O que se endividou pra pagar suas férias na Bahia em 10 prestações sem juros vai se achar superior ao que passou as férias em Cabo Frio. E vão fazer fofocas sobre a “gentinha” de quem querem se diferenciar e se afastar. Entendo a necessidade de historiadores darem valor aos seus muitos anos de estudos teóricos. Mas a verdade é que toda essa teoria é absolutamente irrelevante, e não raro digna de risadas, para quem está construindo sua própria história no dia a dia, vivendo a vida real, exposto ao que der e vier, se adaptando e improvisando constantemente dependendo de onde o vento sopre, enquanto que os intelectuais se mantém isolados dentro de suas bibliotecas, estudando e debatendo o que outros intelectuais isolados pensaram e escreveram. É por isso que são tão ingênuos. E é por isso que são considerados presas fáceis sob o ponto de vista do povão malandro. Mas a boa intenção é o que vale. Água mole em pedra dura… talvez algum dia fure alguma coisa.

    • marcia disse:

      Oi, Ricardo. Você se esquece que os “intelectuais” também estão construindo sua própria história e enfrentam as mesmas dificuldades dos outros em seu cotidiano. Essa imagem de que os estudiosos vivem fechados em bibliotecas, alheios a tudo, não corresponde à realidade atual. Não é fácil viver de pesquisas, nem de livros. Todos precisam dar aulas, revisar textos ou ter outra atividade que lhes pague o sustento. O trabalho intelectual é desvalorizado por muita gente que como você o considera “irrelevante”. É muito frustante ler que o que fazemos é “digno de risadas”. Agora, na minha opinião, é inegável que a cultura e a tradição têm forte influência em nosso comportamento, portanto, acho que conhecer nossa História é fundamental. Entretanto, se você considera isso uma bobagem, não entendo porque você “perde tempo” lendo o nosso blog. Aqui, você só vai ler esse tipo de coisa “irrelevante”…aproveite melhor o seu tempo.

  3. Elisabeth disse:

    A palavra tem claríssimo significado: imposto. Trata-se de uma imposição. Muitos artistas e esportistas decidiram sair de seus respectivos países para fugir dos impostos. Desde que o país seja livre e permita a emigração, nem é preciso fazer alarde. Basta sair.

  4. Vanessa disse:

    Não discordo do tom do texto – acredito, sinceramente, que a crítica feita pela atriz é completamente descabida e traz à tona sim um certo costume de determinados grupos existentes no nosso país – , apenas discordo da ausência de historicização na narração dos exemplos.
    A concessão de privilégios não aconteceu somente no Brasil, a existência de nobreza favorecida não ocorreu somente no Brasil da mesma forma que, por óbvio, as Ordenações Filipinas não eram vigentes somente no Brasil (aliás, estudos revelam que, no que tange à criminalização de condutas e aplicação das penas, as Ordenações tinham um papel muito mais de reforço na autoridade simbólica, sacra e misericordiosa do rei do que de punição, já que muitos dos crimes eram por ele perdoados, aumentando, assim, a adoração dos súditos). Inclusive, a leitura e a escrita da história do Brasil permeada pela visão, digamos, “pura” da teoria do Sérgio Buarque de Holanda a respeito dos portugueses e consequentemente dos brasileiros, o que resultaria num “jeitinho” perfeitamente histórico, é bastante questionada, já há algum tempo, na academia. Acredito que o texto poderia ter levado a reflexão para um caminho que não simplificasse questões históricas que não podem ser simplificadas e que fugisse desse senso comum que nós historiadores já estamos cansados de escutar por aí exatamente a respeito disso. De qualquer modo (e também por ser esta a minha primeira manifestação aqui), quero parabenizar o blog por sempre trazer postagens de qualidade ao público, à exceção desta.

    • marcia disse:

      Obviamente, a concessão de privilégios não aconteceu somente no Brasil- acredito que isso seja claro para qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento de História. O que interessa aqui é pensar sobre como esses privilégios influenciaram a nossa sociedade e se ainda existem vestígios dessa mentalidade. Isso vale para outras questões, como a escravidão, o patriarcalismo, a religião, etc. Nada disso existiu apenas no Brasil, o que não impede que reflitamos sobre seus efeitos na nossa realidade, que provavelmente serão diversos do que ocorre em outras culturas. Em nenhum momento, abordei o uso efetivo das Ordenações Filipinas no cotidiano da Colônia (isso seria tema para outro artigo), simplesmente citei essa legislação para mostrar uma determinada mentalidade existente. O “jeitinho” brasileiro é um tema que merece discussão, na minha opinião, mesmo porque faz parte da percepção que temos de nós mesmos. Não tive a pretensão de esgotar a questão – o que seria impossível em um texto para blog, que tem claras limitações de espaço e de citações – mas, de provocar o debate. Aliás, o objetivo desse blog é estimular a troca de ideias e receber contribuições dos leitores. Infelizmente, alguns preferem adotar uma postura agressiva e prepotente. Tenho notado, com preocupação, que as pessoas estão perdendo a capacidade de discutir de maneira construtiva e pacífica. Obrigada.

  5. R. disse:

    “Mesmo no que se refere ao adultério, as Ordenações Filipinas faziam distinção de classe: o marido traído poderia matar a esposa e o amante, desde que esse último não fosse de condição social superior. ”

    Putz!!! hahahaha

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