A África e o comércio de escravos

Publicado em 7 de janeiro de 2017 por - artigos

           Os africanos começam a chegar por aqui  a partir de 1533. Em carta datada de 3 de março do mesmo ano, Pero de Góis informava que pretendia receber dezessete peças de escravos “forros de todos os direitos de frete que soe pagar”. A partir de 1559, de Pernambuco, era a vez de Duarte Coelho mencionar o assunto reiteradas vezes. Pelo alvará de 29 de março de 1559, o rei fazia mercê àqueles que tinham construído engenhos no Brasil, permitindo-lhes “mandar resgatar ao rio do Congo e de lá trazer para cada um dos ditos engenhos até cento e vinte peças de escravos resgatadas às suas custas, os quais virão no navio que o dito feitor (da ilha de São Tomé) lá enviar para trazer os escravos”.

           Desde 1486, e do primeiro encontro do navegador Rui de Sequeira com Ewuaré, rei de Edo, no Benim, a vida do reino mudou: a expansão cresceu graças ao comércio e, encorajado pelos portugueses, ele passou a buscar cativos entre as nações inimigas. Nas costas da Guiné, ao sul do rio Senegal, os lusos trocavam latão e cavalos por pimenta malagueta, escravos e ouro. Um animal com seus arreios valia quatorze homens. Em Akan, os portugueses erigiram uma cidadela, Elmina, onde comerciavam pepitas de ouro e, devidamente abastecidos pelos pequenos reinados senegaleses e, desde o final do século XV, pelo rei do Benim, vendiam escravos aos Akan, instalados como senhores na região. O comércio interno era intenso.

           A presença de portugueses no litoral ocidental da África e a circulação de mercadorias transformaram a região de Elmina num espaço de trocas para diferentes etnias: Fula, Wolof, Mandingas, Popos, Ewe, entre outras, sem contar os grupos que vinham das savanas para comerciar com os estrangeiros. Convencido de que os portugueses, portadores de cavalos e armas de fogo, o ajudariam a aumentar seu poderio, o rei do Benim os autorizou a instalar uma pequena missão. Não deu certo. O cristianismo era incompatível com a função real, pois esta emanava de uma essência divina que permitia ao soberano ser venerado e temido por seus súditos.

          E esse não foi o único soberano a se interessar pelos lusos. Outro rei sagrado, o Mani Kongo, também quis tirar partido da chegada dos estrangeiros. O primeiro a acostar suas terras, na boca do Zaire e de Angola, em 1485, foi Diogo Cão. Quando os viram sair “do ventre da baleia”, pois assim lhes pareceram as primeiras caravelas, os forasteiros foram tomados por bakulús, mortos que vivem sob a terra e de quem emprestavam as cores. Sem dúvida, tais mundelé, os estrangeiros, vinham lhes anunciar o retorno dos ancestrais. Depois de muito palavreado, ficou claro que, graças a eles e aos objetos que traziam, a terra do Kongo conheceria abundância e poder. Portugueses seriam o augúrio da boa fortuna.

            Instalada em Mbanza Kongo, a capital erigida sobre uma colina, em pouco tempo o reino se beneficiou da eficácia das armas de fogo, das novas técnicas e do comércio de escravos. Crescia o poder do rei, amparado também pelos enormes estoques de cauris, moeda usada entre nações africanas, colhidas perto da ilha de Luanda. Em 1491, uma revolta nos mercados foi sufocada com ajuda de Ruy de Souza e seus homens. Aparentemente convertido ao catolicismo, vestido com sedas europeias, acostumado às pérolas azuis, vinho branco e cachaça de uva, o Mani Kongo, tão próximo dos portugueses, ao morrer deixou seu filho, Nzinga Mbemba, no trono. O novo soberano assumiu o poder em 1512, apesar da hostilidade dos dignitários do reino que o acusavam de voar pelos ares e secar os rios, graças a sortilégios cristãos. Batizado, e doravante chamado dom Afonso, ele mandou queimar os “feitiços” que lembravam seus ancestrais e se jogou nos braços dos estrangeiros.

            Seu filho, batizado dom Henrique, foi ordenado em Lisboa. E, em 1521, tornou-se vigário apostólico, honraria que nenhum índio americano jamais recebeu. Bom cristão, o rei do Kongo enviou ao papa Leão X presentes suntuosos, levados a Roma por uma embaixada conduzida pelo português Tristão da Cunha. Entre eles, 43 animais exóticos, assim como um elefante do qual se dizia chorar como um ser humano e compreender a linguagem dos homens. O paquiderme não resistiu às temperaturas locais e teve direito a um epitáfio escrito pelo papa. Enquanto animais eram tratados como homens, homens eram tratados como animais e embarcados para o Brasil.

            Começava nas primeiras décadas do século XVI o que Serge Gruzinski chamou de “o grande tráfico”. Em 1519, o rei de Portugal instalou uma feitoria em São Tomé para controlar excessos. Tarde demais. A essa altura, os traficantes e negreiros locais, amparados pelos comerciantes portugueses, tinham suas redes de abastecimento organizadas. Do outro lado do Atlântico, tanto lusos quanto espanhóis careciam de mão de obra para explorar as novas terras. Não foi difícil encaminhar cativos para o Brasil. Em 1587, Gabriel Soares de Souza calculava haver entre 4 e 5 mil africanos em Pernambuco. Na Bahia, segundo Fernão Cardim, haveria entre 3 e 4 mil.

  • Texto de Mary del Priore. “História da Gente Brasileira: Colônia (vol.1)”, editora LeYa, 2016.

nnegreirorugendas

“Navio negreiro”, de Rugendas.

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2 Comentários

  1. Liliane de Paula Martins disse:

    Vou acompanhar esse site.
    Parabéns para os criadores do site.

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