A abertura política: como estava o Brasil após 21 anos de ditadura?

Publicado em 1 de abril de 2015 por - História do Brasil

Em 1º de abril de 1964, os militares davam um golpe de estado para derrubar o presidente João Goulart. Seriam mais de 20 anos de ditadura. Confira no artigo a seguir o contexto em que se daria o fim do regime:

Entre 1978 e 1979, o processo de abertura política é consolidado. Ao longo desses anos revoga-se o AI-5, suspende-se a censura, assim como é decretada a anistia aos presos políticos. Na sucessão presidencial, Geisel consegue impor seu sucessor, general João Baptista de Oliveira Figueiredo, consagrando mais uma etapa no “lento e gradual processo” de abertura política. A etapa seguinte consiste na manutenção da base parlamentar, permitindo ao segmento militar eleger o próximo presidente. Com o intuito de alcançar este objetivo e por meio de uma hábil articulação política, garante-se que a Arena, agora sob a sigla Partido Democrático Social (PDS), se mantenha praticamente intacta, enquanto a oposição se fragmenta em vários partidos: PMDB, PP, PTB, PDT e PT.

Os segmentos mais autoritários do regime militar, derrotados pela estratégia da abertura, continuam se manifestando através de atentados, como os ocorridos em 1980 na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Tais ações, no ano seguinte, atingem o ápice: no Riocentro, por ocasião de um show de música popular, na véspera do 1° de Maio, explodem duas bombas no interior de um automóvel. Dentro do veículo estavam um sargento e um coronel do Exército. As investigações são conduzidas de forma tendenciosa, procurando-se atribuir a ação terrorista a grupos esquerdistas. Essa explicação não convence nem mesmo as autoridades militares.
O general Golbery do Couto Silva, então ideólogo do processo de transição, insatisfeito com a forma como o inquérito é conduzido, exonera-se do cargo que ocupava. Trata-se de um momento tenso. Sua saída representaria um recuo no processo de abertura? A dúvida permanece no ar. Como lhe era característico, o presidente Figueiredo, de forma rude, repele qualquer possibilidade de retrocesso declarando: “Juro fazer deste país uma democracia […] É para abrir mesmo, e quem
quiser que não abra, eu prendo e arrebento”.
Foi também nesse contexto que a crescente mobilização popular
passa a ditar o ritmo da transição do regime. Se na primeira fase ela é
comandada quase exclusivamente pelos quartéis, agora tem como
contrapeso a força das ruas. Razões para a insatisfação popular não
faltavam. No ano de 1981 inicia-se uma grave recessão que se estende
por três anos. A inflação, que atinge taxas elevadíssimas, associa-se
agora à estagnação ou ao declínio econômico, como aquele registrado
em 1981 (-4,2%) ou em 1983 (-2,9%). Após décadas de crescimento
elevado ou moderado, a industrialização amarga uma crise sem precedentes.
Como consequência dessa situação, o número de pobres amplia-se. Entre 1977 e 1983, o número de pessoas vivendo com rendimentos inferiores a um dólar por dia aumenta de 17 milhões para 30 milhões. Se no passado a pobreza é registrada mais frequentemente no campo, dando origem a formas de banditismo rural como o cangaço, agora ela tem a cidade como principal espaço. Acompanhando o quadro de empobrecimento da população, a criminalidade urbana expande-se
rapidamente, e a ela associa-se o tráfico de drogas.
A participação popular no processo de abertura, de certa maneira,
reflete um descontentamento coletivo diante dos rumos da sociedade
brasileira. O primeiro grande teste desse sentimento foram as eleições
de 1982. O PDS consegue manter a maioria dos governos estaduais e
das cadeiras no Senado, mas não as da Câmara de Deputados. Devido
à proibição de alianças entre partidos, o PP funde-se ao PMDB,
fortalecendo a oposição e preparando caminho para a vitória na
sucessão presidencial seguinte. A eleição também serve de experiência
para um novo tipo de política popular. Nesse ano, o Partido dos
Trabalhadores (PT) – nascido da confluência entre o “novo sindicalismo”,
não mais dominado pelo populismo, e alguns grupos de esquerda,
originários das dissidências do PCB e do movimento trotskista –
consegue se organizar em quase todos os estados, elegendo oito
deputados.
A oposição está suficientemente fortalecida a ponto de lançar um
movimento pelo retorno das eleições diretas para presidente. Como é
sabido, desde 1964 esse processo é controlado, por intermédio do
Congresso Nacional, pelas forças armadas. A campanha pelas Diretas-
Já consegue grande adesão popular, sendo registrados comícios com
até um milhão de pessoas. Em 1984, a emenda Dante de Oliveira – que
restabelece a eleição direta para presidente – é proposta ao Congresso.
No entanto, por falta de quórum, não é votada. Embora não tenha
atingido seu objetivo principal, a mobilização popular influencia os meios
de comunicação de massa, gerando divisões nas elites e fazendo recuar
setores radicais do Exército.
Pela primeira vez em vinte anos, os militares não controlam mais a
sucessão presidencial. O PDS divide-se, então, entre três candidatos:
Aureliano Chaves, Mário Andreazza e Paulo Maluf. O primeiro,
percebendo a pouca chance que tinha, retira a candidatura. Paulo Maluf
vence com facilidade a convenção, habilitando-se à sucessão
presidencial. Tal vitória, porém, leva a uma fragmentação do PDS, dando
origem ao Partido da Frente Liberal (PFL). Formado por grupos
derrotados na convenção que elegeu Maluf, tal partido se aproxima da
candidatura oposicionista de Tancredo Neves, do PMDB. A aliança
implica ceder a vice-presidência a um membro do PFL, no caso José
Sarney, ex-arenista e pedessista, que acompanha a dissidência liderada
por Aureliano Chaves, vice-presidente na gestão do general Figueiredo.
Em 15 de janeiro de 1985, a oposição chega ao poder. A campanha,
porém, é exaustiva para o candidato vitorioso. Com mais de 70 anos e
saúde debilitada, Tancredo Neves morre antes de tomar posse. Um
momento de indecisão – quem deveria assumir a presidência? Ulisses
Guimarães, líder histórico do PMDB, conhecido como Senhor Diretas e
presidente da Câmara dos Deputados, ou José Sarney, vice-presidente,
identificado ao sistema político herdado da ditadura militar? Apesar da
decepção política que envolve a escolha, prevalece a determinação legal que garante a posse do vice-presidente.

O novo presidente dá início a uma política de contenção, ou pelo
menos de tentativa de contenção da inflação – que, em 1989, chega a
atingir índice anual superior a 1.000%. A dívida externa também havia crescido de maneira assustadora, assim como a pobreza e a miséria. Os militares, após 21 anos, deixam o poder em meio a um cenário desolador.

Fonte: “Uma Breve História do Brasil”, de Mary del Priore e Renato Venâncio.

Garota-se-recusa-a-cumprimentar-o-presidente-Figueiredo-em-plena-ditadura-militar

Garotinha se recusa a cumprimentar o general Figueiredo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!