Os escravos e a hierarquia colonial

Em 1711, o jesuíta italiano João Antônio Andreoni publicava “Cultura e Opulência do Brasil”, sob o pseudônimo de André João Antonil. A obra, dedicada aos senhores de engenho, trazia conselhos práticos de como manter a hierarquia colonial e nos mostra um pouco da vida dos cativos e de como a escravidão era encarada na época. O texto de Antonil se tornou um dos documentos mais importantes que temos para entender a economia e a sociedade coloniais.

A responsabilidade cuidar e manter os escravos decentemente trajados era dos senhores. Em geral, estes não se preocupavam em oferecer trajes adequados para os servos. Apenas os escravos “de dentro” ganhavam roupas mais luxuosas, principalmente quando saíam à rua, pois, era sinal de prestígio exibir escravos bem vestidos acompanhando seus senhores e senhoras em passeios pela cidade. Os outros costumavam andar seminus, apenas com uma camisa  ou calça de tecido grosseiro (que logo viravam trapos).

Andreoni lembrava os senhores de suas obrigações com os escravos. Era mais um dos deveres dos senhores  para que fossem reconhecidos como verdadeiramente “nobres”. “O que pertence ao sustento, vestido e moderação no trabalho, claro está, que se lhes não deve negar, (…) e modo com que se cubra e vista, como pede o estado de servo, e não aparecendo nú pelas ruas”. A prudência é exaltada, pois o escravo deveria estar trajado de acordo com sua posição nesta sociedade tão hierarquizada, sem excessos, mas com decência.

Nas Cartas do Senado da Bahia (1699-1710), entre vários assuntos, como impostos, taxas, preços das mercadorias, percebemos que os vereadores também estavam preocupados em fiscalizar “os maus costumes de trajes desonestos e danças lascivas”. Em 15 de dezembro de 1708, os zelosos legisladores pediam que fosse instituída uma lei proibindo as negras cativas e forras, e todos negros e mulatos de usarem sedas e outros tecidos finos, joias, brocados e adereços de ouro. “pelo bem público, reconhecendo quanto a este prejudica o excesso e luxo com que os negros e mulatos se vestem nesta terra, pois deles nascem os roubos e insultos (…)”

Além detalhar o que negros e mulatos poderiam vestir e se comportar, o Senado ainda tentava normatizar os modos das prostitutas e homens do povo, destacando que estes só poderiam utilizar redes para serem transportados, sendo-lhes proibido as liteiras fechadas e ornamentadas com riqueza. “(…) que as mulheres meretrizes e homens mecânicos não andem em serpentinas, mas só possam usar redes descobertas os homens, e com alcatifas (tapetes) as meretrizes(…)”. Podemos observar que os homens bons do Senado, colocaram no mesmo nível vários elementos da “arraia miúda”, tratando de escravos, libertos, meretrizes e trabalhadores de maneira similar, porém, respeitando a hierarquia.

Os escravos que trabalhavam no campo recebiam peças de baixa qualidade e andavam sempre descalços. Na senzala, vestia-se geralmente apenas uma camisa longa ou, os mais afortunados, calções ou ceroulas para cobrir o corpo. Os servos andavam, portanto, seminus. As mulheres usavam saias e blusas muito largas, com o tronco à mostra. Sempre de tecidos rústicos, como o “pano da serra”, feito com fios crus. As roupas logo se transformavam em trapos imundos, devido à rotina de trabalho. É interessante notar que a nudez das classes inferiores não chocava a população tão afeita a regras de comportamento.

A quem trabalhava na casa-grande era permitido usar um guarda-roupa um pouco mais completo. Em favor da decência, vestiam calças e camisas de tramas grosseiras. As mucamas usavam saias, blusas leves e soltas, panos e xales nas costas e turbantes nas cabeças, o chapéu de feltro escuro e de abas largas era comum. Os tecidos podiam ser coloridos e algumas andavam de chinelas. Os cabelos eram muito curtos ou raspados.

A forma como eram arranjadas as carapinhas das negras – raspadas ou trançadas artisticamente – variava de acordo com a sua origem e permitia aos portugueses identificar de que “nações africanas” (designação imprecisa dotada na época que geralmente se referia aos portos de embarque dos cativos na África) eram provenientes: nagôs, angolas, congos, rebolos, minas, angicos e outros. As escravas e escravos indígenas ou “negros da terra” também passaram a andar parcialmente vestidos, de maneira bem semelhante aos africanos: as mulheres adotaram as saias e panos grosseiros, e os homens, calças e ceroulas.

Nas incipientes cidades, a situação dos cativos era um pouco diferente. O número de escravos que uma pessoa possuía, até o século XIX, era considerado pelos brasileiros um forte indicador de nobreza. Os viajantes europeus que passaram por aqui costumavam ficar espantados com a quantidade de negros a serviço dos mais abastados em nossas cidades. Os nobres não faziam qualquer trabalho braçal ou mecânico. Nada era mais imponente do que sair às ruas acompanhado de um cortejo de servos. Portanto, os senhores se preocupavam em mostrar que tinham muitos escravos e, além disso, que podiam manter todos bem vestidos. Assim, pajens e mucamas costumavam usar roupas à maneira europeia: vestidos, calções, casacas, librés, coletes, camisas e chapéus – de preferência feitos com tecidos finos. Poucos traziam sapatos ou chinelos. As mulheres mantinham o hábito dos turbantes e lenços na cabeça.

Uma cena comum era avistar um senhor ou senhora sendo carregado em liteiras fechadas (que podiam ser também cadeirinhas, palanquins ou redes para os mais pobres) por dois ou mais homens e um cortejo de escravos ou mucamas caminhando atrás. Todos com roupas de luxo, provavelmente já usadas. As sinhazinhas andavam pela cidade (nas raras vezes em que lhes era permitido) com suas mucamas, que seguravam sombrinhas para evitar que o sol lhes escurecesse a delicada pele.

As joias também podiam fazer parte do visual dos cativos e eram uma forma de dar status aos proprietários. As negras e mulatas tinham especial apreço por figas, corais, pulseiras e argolas de ouro e prata. Quanto mais rico o senhor, mais cativos bem trajados poderia exibir. Era a lógica da época. Quem não era tão abastado, ostentava como podia. Era costume fazer sacrifícios ou entrar em pesadas dívidas para adquirir, pelo menos, um escravo – muitos senhores e senhoras respeitáveis viviam à custa da exploração do aluguel de seus cativos.

Os escravos das cidades, gozavam de relativa liberdade para os seus negócios. Havia muitos escravos “de ganho” ou aluguel, que realizavam serviços em troca de pagamento. A maioria precisava entregar parte de seu lucro aos donos, mas, mesmo assim era possível acumular certo capital para comprar a tão sonhada carta de alforria. As atividades destes cativos variavam muito: quituteiras que vendiam doces e outras iguarias, costureiras, bordadeiras, lavadeiras, ferreiros, pedreiros, vendedores, alfaiates (principalmente no século XIX), e outros que competiam com os brancos pobres nos ofícios mecânicos. Os negros e mulatos forros se incorporavam a esta massa de trabalhadores. A prostituição foi uma das alternativas de ganho para as mulheres cativas e libertas. Com isto, não fica difícil deduzir que muitos escravos podiam adquirir mercadorias.- Márcia Pinna Raspanti

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Flagrantes da vida de escravos e libertos: Debret

Uma ideia sobre “Os escravos e a hierarquia colonial

  1. Não é fácil ganhar a atenção na internet hoje e principalmente se forem leitores, com a precária educação que o nosso país sempre ofereceu não são todos que querem ler e “gastar” cinco minutos do seu tempo apreendendo algo novo, textos como estes são como norteadores, onde o intuito é aflorar a curiosidade e fazer com que o leitor se aprofunde, vá buscar suas fontes e saiba mais sobre pecúlio, manumissão, cotidiano, sociabilidade, se existia ou não uma vida social entre os escravos ou forros. Tudo isso é muito bem elaborado e apresentado no historiahoje.com, a Raspanti esta de parabéns pelo texto.

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