50 Tons de Cinza: conto de fadas do século XXI?

Publicado em 10 de fevereiro de 2015 por - temas atuais

A mocinha é bela, desajeitada e virgem. O herói é rico, poderoso e experiente. Ela fica surpresa com o interesse dele, já que não tem consciência do quanto é atraente. Ele se encanta com sua ingenuidade e pureza. Ambos embarcam em uma louca paixão, em uma aventura improvável. Há segredos no passado dele. Ela se assusta ao perceber desejos que nunca imaginou ter; ele descobre sentimentos que estavam adormecidos. Você se lembra desse roteiro? Parece romance açucarado do século XIX, comédia romântica de Hollywood ou aqueles livrinhos “para mulheres” vendidos em bancas de jornal até hoje?

Nada disso. Essa é a história que recentemente causou furor mercado editorial e que deve repetir o estrondoso sucesso no cinema. “Cinquenta Tons de Cinza” foi escrito por E.L. James e publicado inicialmente na internet, até que alguém percebeu o potencial comercial da obra. A diferença em relação aos livros voltados para o público feminino de antigamente está no conteúdo sexual. Há muito sexo sadomasoquista. Mas, como a autora mesma diz, é tudo leve, sutil, já que as mulheres não gostam de nada “pesado”.

Não tenho a pretensão de fazer uma crítica literária (li apenas alguns capítulos, confesso), mas acho que é importante analisarmos a obra, que segue uma tradição antiga da literatura produzida para as mulheres. Conheço pessoas que leram, e todas dizem a mesma coisa: “o sexo é apenas para apimentar, o que encanta é a linda história de amor entre os dois”.  E é verdade, na minha opinião: o sexo causou uma certa polêmica em torno da obra, mas o romantismo é a chave do sucesso. Christian Grey é um “príncipe encantado” à moda antiga: lindo, rico, forte. O toque atual fica por conta da sua busca por uma escrava sexual submissa. A mocinha aceita o papel, afinal, vale tudo para conquistar o amor…

A fórmula está longe de perder o vigor. O grupo canadense Harlequin Books se dedica à publicação de livros “de mulherzinha” em 109 países, com sucesso indiscutível até os dias de hoje. Herdeiros dos folhetins do século XXI, tais obras encantam gerações e gerações de fãs sonhadoras. Para a editora Lívia Rosa, do Grupo Record, responsável pela publicação dos títulos da Harlequin no Brasil, as leitoras almejam um herói ou “príncipe encantado” com perfil atualizado, mas sempre viril e com um toque de exotismo. Os tipos preferidos são o magnata e o sheik. Os cenários precisam ser sofisticados e glamorosos. As cenas românticas e sensuais. O casal deve superar os obstáculos antes do “final feliz”. (revista Brasileiros, setembro de 2014). A estrutura narrativa de “Cinquenta Tons de Cinza” se encaixa perfeitamente no modelo…

Mas o que há por trás de todo esse romantismo idealizado? De acordo com Mary del  Priore, boa parte das mulheres do século XXI sonha com o amor dos contos de fada e da literatura cor de rosa. “Criadas em um mundo patriarcal e machista, não conseguem se enxergar fora do foco masculino. Vivem pelo olhar do homem, do ‘outro’. Independentes, querem uma única coisa: encontrar um príncipe encantado”.  A grande questão é: o romantismo da ficção pode atrapalhar a vida das mulheres reais ou se trata apenas de diversão inocente, uma válvula de escape para o dia a dia? Cada uma de nós tem a sua resposta…

– Márcia Pinna Raspanti.

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Cena do filme “Cinquenta Tons de Cinza” (divulgação).

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1 Comentário

  1. Fabiana disse:

    Se esse romantismo de ficção pode atrapalhar? Acredito que sim. Antes o príncipe vinha montado a cavalo, hoje vem de jatinho jogando flores do céu. Inconscientemente vamos construindo um modelo de homem perfeito: poderoso, forte e ao mesmo tempo romântico, quando na realidade as coisas são diferentes. Projetamos sobre o outro aquilo que queremos e quando vemos que as coisas não são como imaginadas, há frustação e achamos que ele “já não gosta tanto assim de mim”. A receita é não esperar muito das outras pessoas, ou melhor, não projetar nele todas as nossas imaginações.

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