Os Amores do Imperador

Enquanto se exigia recato absoluto entre as jovens da elite, na Corte, o “mau exemplo” era evidente. Pesquisa realizada pelo Arquivo Nacional revelou, até agora, cerca de 43 filhos bastardos do nosso primeiro imperador. Seus amores, eram públicos e notórios como revelam as impressões do ex-oficial Carl Schlichtorst, de passagem pela Guanabara entre 1824 e 1826:

A primeira camareira de Sua Majestade a Imperatriz, a paulista Domitila de Castro e Canto, Viscondessa de Santos, é a amante declarada do Imperador. Distingue-se pelo rosto regular e formoso e pela desusada alvura da tez. Não lhe falta bastante gordura, o que corresponde ao gosto geral. Já a abandonou a primeira floração da mocidade, mas os olhos nada perderam de seu fulgor e uma porção de cachos escuros emoldura-lhe as lindas feições. É uma mulher verdadeiramente bela, de acordo com a fama de que gozam as paulistas.Seu marido é general e tem um comando nas províncias do sul. Pouco tempo depois do nascimento do príncipe herdeiro ela deu à luz a um filho, que morreu em breve, reconhecido pelo Imperador com o nome de Duque de São Paulo. Por um decreto posterior, a filha que dela teve Sua Majestade, Maria Brasileira, foi nomeada duquesa de Goiás. O Spectator contou que a criança fora apresentada à Imperatriz e esta a beijara com sentimento maternal. Essa folha servil, editada pelo tipógrafo da Corte, Plancher, tendo como redator o Padre Sampaio,fez nessa ocasião edificantes observações: que era belo os grandes Príncipes tentarem reparar erros cometidos como homens, de maneira tão brilhante, o que, em todos os tempos fora muito proveitoso para as nações [...] quem fizer questão de possuir um retrato muito parecido da festejada D.Domitila faça vir de Paris uma estampa que trás a legenda – O querido Brasileiro Dia – na qual está alegoricamente representada a Independência do novo Império do Brasil. Sobre despedaçados grilhões de escravos e serpentes calcadas aos pés, vê-se o jovem D. Pedro, com uma encantadora americana que se lhe atira nos braços. A bela Condessa é o original dessa figura. Não me atrevo a afirmar que tenha posado para o pintor nos mesmos trajes com que na gravura se apresenta.

Na cidade e nas províncias, muitas crianças reclamam a honra de ter sangue real. Sua Majestade não lhes dá importância. As mais lindas mulheres aspiram ao seu afeto e dizem que ele raramente deixa alguma padecer sem ser atendida. A verdade é que D Pedro não é muito delicado em sua escolha, nem pródigo em recompensar o gosto recebido. Várias francesas da rua do Ouvidor, o Palays-Royal do Rio de Janeiro, têm essa experiência.

Como as borboletas de seu Império, o monarca esvoaça de flor em flor. Apenas a Condessa de Santos conseguiu prendê-lo duradouramente, não só vencendo a sua volubilidade como o seu pendor, herdado do pai para a economia. Por ocasião do nascimento do duque de São Paulo, ele a presenteou com um adereço avaliado em 4 milhões de cruzados e agora está construindo, em frente ao Paço da Boa Vista, um palácio para ela, no qual seu gosto, como arquiteto se patenteia do mesmo modo brilhante e genial como se mostrou compositor do Hino Nacional.

O povo que essas desusadas constância e prodigalidade espantam, afirmam que ela fez um feitiço para o Imperador, o enfeitiçou como se diz em boa linguagem brasileira, o que seria ridículo na Europa, onde nem o sonambulismo consegue medrar. No Novo Mundo, a crença em meios sobrenaturais e simpatias está comumente espalhada, o êxito a favorece e o mais despreocupado observador depara fenômenos que abalam suas convicções sobre a natureza. Poucas pessoas recusam a crer nessas coisas”.

Assinando-se “seu fogo, foguinho” ou “o Demonão”, D. Pedro manteve com D. Domitila de Castro uma correspondência na qual, como dizia seu biógrafo  Alberto Rangel, multiplicavam-se fáceis proposições de ordem amorosa: “representam elas tudo aquilo em que o trato íntimo se alimenta e se desata, mas enterrado na fórmula da mais exasperante das banalidades”. Algumas delas, seguiam acompanhadas de pequenos rabiscos sugestivos, como a que se pode ver no Museu Imperial de Petrópolis: um pênis ejaculando assina junto com o nome do imperador. No início do romance, D. Pedro I empregava expressões carinhosas como “Meu amor e meu tudo”. “Meu amor, minha Titila”; alterando, com o passar do tempo para um recatado “Minha querida filha” ou, na fórmula consagrada, “minha amiga; até acabar num  distante “Querida marquesa”ou, ainda, um singelo “Filha”.

“Minha querida filha e amiga do coração.

Ainda agora te respondi como imperador, agora te escrevo como teu filho, amigo e amante a mostrar-te que estou saudoso de ti, pois me lembro do ano passado em que tive a ventura de estar contigo. Minha filha, já que não posso arrancar meu coração para te mandar, recebe esses dois cabelos do meu bigode, que arranquei agora mesmo para te mandar. Eu estou hoje num estado de tristeza e melancolia, com saudades tuas, além de toda a expressão. Adeus minha filha, aceita o coração dilacerado de saudades tuas que te oferece este teu desgraçado filho, amigo, amante, fiel, constante, agradecido e verdadeiro

O Imperador”

Carta de D. Pedro I à Marquesa de Santos, 12/10/1827.

-Mary del Priore.

 

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D. Pedro I: escândalos amorosos.

 

“Do outro lado – a história do sobrenatural e do espiritismo”

Hamburgo, Rio de Janeiro, Nova York, Salvador, Paris. O que haveria em comum entre essas cidades, na década de 1860?  Em algum lugar, numa  sala escura de venezianas  cerradas, um grupo  de pessoas tentava  falar  com os mortos. Na  luz bruxuleante, uma mesa redonda. Todos de mãos dadas. Em silêncio, a batida dos  corações  acelerava.  O suor  na testa  revelava  que uma  dose  de angústia,  medo  e curiosidade era  assim  injetada  nas  veias. Depois de uma  oração  em voz baixa,  mãos  se estendiam  em direção  às letras  espalhadas em círculo.  No  centro,  um  copo  ou  um  triângulo de madeira.  Alguém elevava a voz, perguntando: “Há  alguém  aí?”. Silêncio. E de novo: “Há  alguém  aí?”.  Figuras solenes cercadas  de luz pálida  eram  aguardadas. Supostamente, elas abordariam e consolariam  os presentes, deixando-os, depois, em lágrimas. Trariam informações  do outro  lado.  Notícias  de entes queridos,  parentes,  até mesmo recados  de desconhecidos.

Assistia-se, então, à formação de um pequeno  mundo. Seus habitantes eram os membros  de uma nebulosa  que acreditava em práticas magnético espiritualistas. Era  composta de aristocratas, burgueses  e simples operários. Sua unidade  era de ordem  psicológica  e espiritual. O grupo reunia, sobretudo, não conformistas, insatisfeitos com as verdades oficiais, fossem elas religiosas ou filosóficas. O catolicismo  decadente dava lugar ao misticismo. E, nesse pequeno  mundo, pesquisas sobre o sobrenatural levariam a novas descobertas.

Tempos  estranhos esses, em que as ciências tinham  introduzido tantas conquistas – a eletricidade,  a química,  a ótica  –, mas em que o desejo  das pessoas  era  um  só: abordar um  universo  maravilhoso, onde tempo e espaço não existissem. Onde se pudesse ver os espíritos e fantasmas e falar com eles. O prazer  que se tinha  nas “histórias de espíritos”, diziam os cientistas, vinha de um resto de dúvida sobre sua existência.  Mas, sobretudo, de um secreto  desejo de que fossem verdadeiras.  E tanto  mais o futuro  parecia sombrio,  maior o número  dos crédulos ou crentes que buscavam  esclarecer suas dúvidas e encontrar coragem nas comunicações com o outro  lado. – Mary del Priore.

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Leopoldina e a Independência

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Existe a crença de que D. Leopoldina teria influenciado diretamente D. Pedro na proclamação da Independência. Mas, não há comprovação disso nas cartas e documentos da época. O futuro imperador não respeitava nem José Bonifácio, o grande mentor da emancipação! … Continuar lendo

A pesquisa histórica e suas surpresas: os “garotos-propaganda”

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Lançamento: novo livro de Mary del Priore

No dia 3 de setembro, às 19 horas, na Livraria Travessa Leblon (RJ), lançamento de seu novo lançamento ”Do Outro Lado”.

“Quem nunca ouviu uma história de casa mal-assombrada? Quem nunca tentou conversar com espíritos por meio de um copo sobre a mesa ou então visitou uma cartomante? Como se vê, o mundo sobrenatural e a preocupação com os mortos estão presentes na nossa vida há muito tempo, e em todas as religiões. Mas de que forma nossos antepassados lidavam com essas crenças? Como isso influenciou nosso atual modo de enxergar o “outro mundo”?

Em Do outro lado, Mary del Priore conta a história do sobrenatural
em nossa sociedade, principalmente desde fins do século xix,
quando as chamadas “mesas volantes”, que permitiam que médiuns
conversassem com espíritos, chegaram à Europa e também ao
Brasil, abrindo caminho para que Allan Kardec desenvolvesse, na
França, o espiritismo. Tudo isso misturado a cartomantes, videntes,
sonâmbulas, endemoninhadas, curandeiros…
Recheada de histórias saborosas e casos pitorescos, a obra é
narrada por uma das maiores historiadoras do país, permitindo
ao leitor conhecer melhor nosso passado, nosso presente e nossa
relação tão especial com o “além”.

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