A ditadura da magreza: lipofobia

As ideias de teóricos importantes como Sabbathier, Tissot ou Pestalozzi corriam o mundo no final do século XIX. Mulheres começaram a pedalar ou a jogar tênis, voga importada da Europa. Não faltou quem achasse a novidade, imoral, uma degenerescência e até mesmo, pecado. Perseguia-se tudo o que pudesse macular o papel de mãe dedicada exclusivamente ao lar. Algumas vozes, todavia, se levantaram contra a satanização da mulher esportiva. Médicos e higienistas faziam a ligação entre histeria e melancolia – as grandes vilãs do final do século – e a falta de exercícios físicos.

Confinadas em casa, diziam, as mulheres só podiam fenecer, estiolar, murchar. O esporte seria mesmo uma forma de combater os adultérios incentivados pelo romantismo. Afinal, encerradas ou aprisionadas, só restava às mulheres a sonhar com amores impossíveis ou tentar seduzir o melhor amigo do marido. Por isso, a sensualidade feminina começou a rimar com saúde. Se a mudança ainda se revelava hesitante, não demorou muito a se instalar e a tornar-se inexorável. Na Europa, de onde vinham todas as modas, a entrada da mulher no mundo do exercício físico, do exercício sobre bicicletas, nas quadras de tênis, nas piscinas e praias, trouxe também a aprovação de corpos esbeltos, leves e delicados. Tinha início a perseguição ao chamado “enbompoint”, – os quilinhos a mais – mesmo que discreto. O grande romancista Frances, Emile Zola, se alarmava: “A ideia de beleza varia. Ela agora reside na esterilidade de mulheres alongadas, donas de flancos pequenos”. Era a eclipse do ventre.

Alguns médicos rebelavam-se contra a moda de tendência masculina que associavam às concepções feministas e ao desprezo pela maternidade. Os cabelos curtos, as pernas finas, os seios pequenos eram percebidos por muitos homens como uma negação da feminilidade. O movimento, contudo estava lançado. Regime e musculação começavam a modelar as compleições longilíneas que passam a caracterizar a mulher moderna, desembaraçada do espartilho e ao mesmo tempo, de sua gordura decorativa.  As pesadas matronas de Renoir eram substituídas pelas sílfides de Degas. Insidiosamente, a norma estética emagrecia, endurecia, masculinizava o corpo feminino, deixando a “ampulheta” para trás.

O discurso higienista, tão ativo entre os anos 20 e 30, estimulava a vida das mulheres ao ar livre, menos cobertas e mais fortificadas. O hábito dos esportes, a fundação de clubes, a ênfase na dança instigada pela recém inventada indústria fonográfica, acirravam a exposição dos corpos. Instalou-se a busca da aparência sã. A medicina começava a sublinhar a importância de exercícios e vida saudável para preservar, não somente a saúde, mas a frescura da tez, a pele saudável, o corpo firme e jovem. Acreditava-se que os defeitos físicos poderiam ser corrigidos, não à custa, de toneladas de maquilagem ou qualquer outro artifício, mas por outros meios salutares como a vida higiênica, disciplinada e moderada.

Ser feia, nas primeiras décadas do século XX tinha seus pontos negativos. Todas sabiam que a fotografia, o cinema e a imprensa divulgavam padrões que deviam ser seguidos, excluindo aquelas que deles não se aproximassem. Tipos femininos criados por Clara Bow, Alice White, Colleen Moore incentivavam imagens sobre “garotas modernas”, misto de alegria, mocidade, jazz e cocktails! Um controle mais rígido sobre a apresentação pessoal era exigido até nos empregos ocupados por mulheres. A chamada “boa aparência” impunha-se. Os bons casamentos, sobretudo dependiam dela.

Graças ao cinema americano, novas imagens femininas começam a multiplicar-se e, novidade: a beleza passava a ser o motor do desejo. A moda tornou-se uma das principais articuladoras do novo ideal estético imposto pela indústria cinematográfica americana. Não era mais Paris quem a ditava, mas os estúdios de Hollywood. O que estava em jogo em todo esse discurso da aparência é a transformação do corpo feminino em objeto de um desejo fetichista. Se por um lado, a estética cinematográfica era sinônimo de mentalidade moderna, e um domínio, onde a mulher podia tomar iniciativas, por outro, a sensualidade que emanava de sua representação, a transformava em objeto passivo de consumo. Ora, o poder de sedução de estrelas do cinema marcou toda uma geração de mulheres, servindo de modelo para a imagem que elas queriam delas mesmas.

Ao aparecimento desses rostos na tela, – jovens, maliciosos e sensuais – somaram-se outros fatores cruciais para a construção de um modelo de beleza. Data dessa época o banimento de cena, da mulher velha. Se até o século XIX, matronas pesadas e vestidas de negro enfeitavam álbuns de família e retratos a óleo, nas salas de jantar, no século XX, elas tendem a desaparecer da vida pública. Envelhecer começa a ser associado à perda de prestígio e ao afastamento do convívio social. Associa-se gordura diretamente à velhice.

Era a emergência da lipofobia. Não se associava mais o redondo das formas, – as “cheinhas” – à saúde, ao prazer, à pacífica prosperidade burguesa que lhes permitia comer muito, do bom e do melhor.  A obesidade começa a torna-se um critério determinante de feiúra, representando o universo do vulgar, em oposição ao elegante, fino e raro. Curiosamente, esbeltez e juventude se sobrepõem. Velhice e gordura, idem. “É feio, é triste mesmo ver-se uma pessoa obesa, principalmente se tratar-se de uma senhora; toca às vezes as raias da repugnância” advertia a Revista Feminina, em 1923. A gordura opunha-se aos novos tempos que exigiam corpos ágeis e rápidos. A magreza tinha mesmo algo de libertário: leves, as mulheres moviam-se mais e mais rapidamente, cobriam-se menos com vestidos mais curtos e estreitos, estavam nas ruas. O rosto rosado pelo ar livre, pela atividade não se coadunava com o semblante amarelo das mulheres confinadas em casa.

Vitória da silhueta reta? Não! Ilustrações e charges dão a pista para o gosto masculino em relação às formas femininas. Elas seguiam arredondadas, valorizando quadris e nádegas, seios pequenos e pouco salientes. Resumindo: quatrocentos anos de morenas e mulatas sinuosas, da consagrada “morenidade” descrita por Gilberto Freyre, resistiam bravamente aos modelos importados e aos avanços das beldades escandinavas, ditadas pelo higienismo ou hollywodianas, impostas pelo cinema! – Mary del Priore.

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“Duas bailarinas em cena”, de Edgar Degas.

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